a luta por um mundo melhor

 

É franzina, mas tem sangue transmontano nas veias. Sozinha inventou uma nova ferramenta de alfabetização para crianças com necessidades especiais e uma escola para cuidadores com um método de ensino inovador. Os ares nordestinos fizeram dela uma lutadora. Pertence aquela categoria de idealistas que leva tudo à frente.

Na vida de Celmira Macedo há um antes e um depois de 2003, ano em que começou a trabalhar com crianças com necessidades especiais. Tinha formação como professora nessa área, mas sentiu que para ajudar verdadeiramente os seus alunos precisava de aprender estratégias para trabalhar com as suas famílias. E como nunca foi pessoa que se acomodasse, decidiu ganhar competências: “Fui para a Universidade de Salamanca fazer uma tese de doutoramento sobre ‘As Competências Emocionais das Famílias das Pessoas com Deficiência’. Fez trabalho de campo, estudou 300 famílias da região de Bragança e concluiu que os cuidadores informais das pessoas com deficiência estavam “à beira de patologias e sem qualquer apoio do Estado”.

A tomada de consciência desta situação de desamparo fê-la pensar duas vezes: “Ou entregava a tese, ou ia ajudar as famílias”. Seguiu o que lhe mandava o coração. Pôs a tese na gaveta e arregaçou as mangas: “Fui à sub-região de saúde e consegui que naquele ano pusessem técnicos num dos centros de saúde do distrito de Bragança”. Mas não era suficiente. O que podia ela fazer?

Corria o ano de 2006. O que os cuidadores precisavam era de formação, por isso seria ela a empreender esse caminho. Não havia no país um programa de formação parental que apostasse na parentalidade positiva na deficiência. Quem a cercava tentou demovê-la: “Não vais conseguir. Esses pais não vão a formações”, diziam-lhe. Mas conseguiu. Chamou-lhes Escola de Pais NEE (o acrónimo significa Necessidades Emotivas Especiais) e com o apoio de parceiros conseguiu, até hoje, abrir oito unidades. Além de trabalharem as competências parentais, nessas escolas fazem “Educação para a diferença” e “Educação emocional”, algo que marca a diferença.

Como uma bola de neve, a obra de Celmira foi crescendo. A primeira Escola de Pais deu origem à Associação Leque, que apoia as famílias das pessoas com deficiência, “fazendo de um leque de problemas, um leque de soluções”. Da segunda e terceira unidades escolares nasceu um outro projecto, o centro cultural que na prática funciona como colónia de férias onde os pais podem deixar os seus filhos com necessidades especiais durante o mês de Agosto. Sempre que possível foi respondendo às necessidades da comunidade que meteu debaixo da asa – e com enorme sucesso.

Em paralelo um outro projecto, que lhe nasceu literalmente nas mãos, foi ganhando vida própria. Desenvolveu-o intuitivamente, ainda em 2003, ao tomar contacto com um grupo de crianças autistas: “Diziam-me que jamais essas crianças aprenderiam a ler”, recorda. Mas Celmira não acredita em impossíveis, por isso lembrou-se de associar num conjunto de cartas os símbolos gráficos, fonéticos, escrita em braille e desenhos que reproduziam a linguagem gestual. Quatro caminhos que decidiu cruzar para ver o que dava, e o resultado foi espantoso: “Comecei a perceber que com as cartas aquelas crianças pelo menos aprendiam o nome. Depois verifiquei que conseguiam aprender todas as letras do alfabeto e finalmente foi possível pô-las a juntar sílabas”, descreve. Foi uma felicidade, uma descoberta que aplicou aos frequentadores da sua Associação Leque e que mais tarde apresentou num Bootcamp de empreendedorismo social, que venceu, contra trinta concorrentes, na categoria de melhor ideia original. Depois disto foi-lhe possível aprimorar as cartas, contando para o efeito com o apoio de artistas reputados. Chamou-lhes Ekui – o acrónimo para equity/equidade; knowledge/conhecimento; universality/universalidade; inclusion/inclusão – porque são estas as características que as tornam únicas. Fáceis de usar, podem servir para ensinar qualquer língua, em qualquer lugar. Celmira sonha com o dia em que o Ministério da Educação as adopte para o ensino de português a emigrantes de segunda e terceira geração: “Portugal está a apostar em escolas de português em vários países, a pensar nos jovens filhos e netos de emigrantes que perdem o contacto com a nossa língua. A questão fonética também se perde, por isso as  poderiam ser uma importante ferramenta neste contexto”.

Premiadas e certificadas cientificamente, as cartas da Celmira já são usadas por dez agrupamentos de escolas do país: “Chegámos a quase três mil crianças! O Ekui começou por ser para um grupo restrito, mas agora é usado no ensino convencional. Sabemos que, em média, a maior parte dos alunos aprendeu a ler mais rapidamente através do Ekui do que dos métodos tradicionais e que as crianças com problemas ao nível da fonética não precisaram de ir à terapia da fala”, festeja.

Passo a passo Celmira criou um mundo melhor, mobilizando família, amigos, voluntários e a própria comunidade a que se dedicou. Nunca em todos estes anos pôde contar alguma vez com o Estado. Sempre sozinha, foi o motor de todos os seus projectos. Continua até hoje com esperança de poder ganhar escala através de uma parceria com as autoridades competentes. “Gastamos milhões à procura e a fazer caminhos para a inclusão e quando alguém tem esse caminho traçado e não é integrado, custa a perceber”, desabafa.

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