Exclusivo Green Savers, Roberta Medina: “Há uma parte do mercado que bloqueia as [inovações sustentáveis]”

Na segunda e última parte da entrevista exclusiva ao Green Savers, a vice-presidente do Rock In Rio, Roberta Medina, denuncia que “há uma parte do mercado que bloqueia [as inovações sustentáveis]”.

“Quando implementámos o nosso sistema de compensação de emissões, fui a Londres participar numa conferência sobre as alterações climáticas e senti-me traída. Aquelas pessoas estão a discutir a sustentabilidade e as alterações climáticas há 25 anos, como é que eu nunca tinha ouvido falar daquilo?”, desabafou a profissional

Recorde aqui também a primeira parte desta entrevista, um exclusivo Green Savers com a cara do Rock In Rio em Portugal.

Não podemos separar o investimento do Rock In Rio nas causas sócio-ambientais da própria estratégia de marketing do evento…

São coisas separadas. O projecto social do Rock In Rio não foi criado por um estímulo de marketing, mas ele é uma ferramenta forte. O nosso objectivo é que todos pensem desta forma, que o nosso produto seja valorizado por isso e que as empresas privadas compreendam que se os seus produtos estiverem a apoiar causas sociais, então eles serão produtos mais caros.

Hoje, por exemplo, quando estamos a falar de tecnologia, é tudo igual. O que muda? A marca. O que é a marca? São valores. Essa é a verdade, o consumidor escolhe pela marca. O Rock In Rio, para os patrocinadores, é conteúdo. E eles valorizam este conteúdo porque, entre os seus vários valores, há alguns que são os mesmos que a marca Rock In Rio. Isto é o mercado a funcionar no seu melhor.

Nós fizemos uma pesquisa, no Brasil, em 2001, em que colocámos duas latas iguais de Coca-Cola, uma ao lado da outra, sendo que uma era 10 cêntimos mais cara, mas esse valor revertia para causas sociais. Perguntámos se as pessoas estavam dispostas a pagar pela lata mais cara, e 80% respondeu que sim, estava disposta a comprar a lata mais cara.

Como decidem quais as instituições que obtêm o vosso apoio? É preciso uma espécie de candidatura?

Em Portugal, trabalhamos em conjunto com a SIC Esperança, mas a decisão de criar o Rock In Rio Escola Solar, por exemplo, foi tomada por mim. Entendi que a temática da microgeração e da produção de renováveis era muito importante para o País e precisava de ser falada.

Este concurso, aliás, ganhou um prémio internacional, o “Energy Globe Award”, que nem eu sabia que existia. Concorreram 800 projectos de 111 países… Conquistámos a categoria de Juventude – há cinco categorias –, em 2008. Eu nem sabia que este prémio existia, e quando soube já estava nos finalistas.

Mas voltando ao tema anterior, lembro-me, por exemplo, dos copos 100% biodegradáveis da Sagres, que o Rock In Rio utilizou em 2008. Isso faz parte da vossa abordagem aos patrocinadores?

Sim, neste caso partiu. Na altura em que lançámos o concurso de ideias verdes para os nossos patrocinadores, os copos normais de plástico não eram recicláveis, não havia tecnologia para reciclar aquele plástico.

Mas a tecnologia está a evoluir muito rápido, e o grande resíduo que há no evento é o plástico, e é um resíduo que até controlamos muito mais.

Quando começámos a trabalhar no tema da sustentabilidade, alterações climáticas e redução das emissões, tive reuniões com todos os patrocinadores e directores das áreas de especialidade relacionadas com a inovação e a sustentabilidade e pedi-lhes para que se motivassem para o tema das alterações climáticas – e muitas marcas, tenho que reconhecer, tinham receio que esta temática não viesse para ficar, que passasse.

E mais, tinham receio de serem criticadas só porque prepararam algo especial para o Rock In Rio. E isso eu não compreendo: porque razão a imprensa critica uma empresa por preparar algo sustentável? Só porque não o fez antes? Mas qual é o problema? Temos que começar por algum lado, certo?

A verdade é que muitas marcas se mostraram receosas em agir – nem que fossem acções pontuais – por causa disso. E sim, aí tivemos muitas dificuldades em menorizar este receio.

Outros dos problemas é a falta de tecnologia para desenvolver produtos sustentáveis, o que é uma realidade. E muitos dos produtos que existem são muito mais caros, e ninguém quer viabilizar um projecto financeiro por causa disso.

Por exemplo, se eu quisesse ter toda a iluminação em LED, isso custar-me-ia mais de 200 mil euros… esqueçam, esqueçam. A nossa mensagem, nesta altura, terá de ser: “Não somos perfeitos, mas estamos a fazer o nosso melhor… para melhorar”.

E é isso que os patrocinadores têm que fazer. Como que direito alguém se vira para mim, mete a mão no meu bolso e diz que eu tenho que fazer mais? Gostava de encontrar uma pessoa dessas para ter esta discussão.

Ainda em relação aos copos 100% biodegradáveis, a Central de Cervejas…

Não sei como foi o processo deles, que não acompanhei, estou interessada no processo final. Mas há outros produtos no mercado, não é preciso fazer investigação. Actualmente, no Brasil, estamos a fazer um esforço para que os patrocinadores de lá tenham os copos biodegradáveis… há já muito oferta no mercado, ainda que seja um pouco mais cara. Mas não é preciso tecnologia para participar no projecto social.

Mas deixe-me dar um exemplo da importância, para as empresas, de serem sustentáveis. A Ambev – que é hoje, provavelmente, a maior cervejeira do mundo – está a fazer um investimento brutal ligado ao meio ambiente para reduzir o consumo de água. Porquê? Para ser mais eficiente. Mas não há nada de mal com isso, isto é o que acontece numa empresa, querer ser mais eficiente.

Quando a Bolsa começa a dizer que as grandes empresas vão ser avaliadas com critérios relacionados com a sustentabilidade…

Mas isso ainda está longe de acontecer.

Já está a acontecer… em Wall Street isso acontece. As grandes empresas já estão a ser questionadas pelas suas práticas ambientais. E os grandes grupos têm que se reestruturar. Agora, também temos que ver que, depois de décadas e décadas de consumo – em que as pessoas só ouviam: “Gasta, gasta, gasta” – não é de um dia para o outro que mudamos as pessoas. Não só as pessoas, também as empresas demoram a mudar. O que é absurdo é terem escondido isso [as alterações climáticas] tanto tempo de nós.

Há uma parte do mercado que bloqueou esta questão muito tempo. Há várias tecnologias novas e que são alternativas ao petróleo, mas eles bloqueiam porque não lhes interessa. Quando implementámos o nosso sistema de compensação de emissões, fui a Londres participar numa conferência sobre as alterações climáticas e senti-me traída. Aquelas pessoas estão a discutir a sustentabilidade e as alterações climáticas há 25 anos, como é que eu nunca tinha ouvido falar daquilo?

Enquanto o mercado não tiver volume na decisão, vamos ficar por aqui.

A fundação da Tela Bags, uma das marcas eco de referência em Portugal, está intimamente ligada à primeira edição do Rock In Rio, com o aproveitamento do lixo…

Sim, é verdade, achei genial.

Já pensaram em fazer alguma parceria com a marca?

Nós doámos-lhes as lonas que ficam do Rock In Rio, acho que todos os anos o fazemos. Nos últimos anos doamos também para o Boom Festival. No primeiro dia de desmontagem, há um número brutal de resíduos, como a madeira, que vão para o Boom Festival.

Em Lisboa utilizamos as lonas já muito perto do evento, mas no Brasil, por exemplo, usamo-las um tempo antes, e depois enviamos para uma cooperativa. Mas aí é diferente, porque ainda tenho os produtos durante o evento.

No Brasil há muitas cooperativas que aproveitam os resíduos e, com isso, sustentam centenas de famílias. Não só com lonas mas outros materiais, que reutilizam e produzem para empresas de brindes. No Brasil, recomendamos aos nossos patrocinadores que vão ter com estas instituições.

O Jack Johnson, que dedica muitas das suas músicas à sustentabilidade, participou no Rock In Rio em Lisboa e Madrid. Pediram-lhe conselhos sobre sustentabilidade?
O Jack Johnson aceitou em ceder uma música para uma campanha que irá para o ar nas próximas semanas… é sem dúvida um artista muito comprometido. Mas é difícil fazer algo semelhante com outros músicos, é impossível chegar até eles. Todo o sistema está montado para que ninguém consiga chegar até aos artistas, porque senão ele pode querer vir de borla. E isso já não interessa. O Bob Geldof é o único que consegue chegar directamente aos músicos. Sem esta linha de comunicação, não há nada a fazer.

Que novidades teremos no Rock In Rio 2012, em Lisboa, no que toca à sustentabilidade ou inclusão social?

Ainda não posso revelar, mas haverá uma terceira edição do Rock In Rio Escola Solar, um desafio mais divertido e com resultados mais imediatos e visíveis. É isso que iremos propor para os alunos. Será 100% carbono zero, 100% reciclável… isso não volta atrás.

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