Luís Hagatong, Schneider Electric: “Em Portugal, os edifícios públicos consomem mais energia que a iluminação pública”

Luís Hagatong, Schneider Electric: “Em Portugal, os edifícios públicos consomem mais energia que a iluminação pública”

Na Schneider Electric desde Setembro de 2002, Luís Hagatong já teve vários cargos e funções. Hoje, como director da área de negócio de eficiência energética, tem duas missões: desenvolver esta unidade de negócio e transmitir o seu conhecimento específico do mercado aos colaboradores e clientes da multinacional francesa.

Numa entrevista exclusiva ao Green Savers, em vésperas da Páscoa, o gestor desmistificou algumas das ideias pré-concebidas sobre a eficiência energética, sobretudo no que toca aos preços elevados e áreas de actuação; identificou algumas da tendências deste mercado e falou ainda sobre a estratégia Eco AP, com a qual o Governo quer revolucionar a forma como os edifícios públicos consomem energia.

Por razões editoriais, decidimos dividir a entrevista em duas partes. Leia a primeira parte.

Quais as principais tendências do mercado global de eficiência energética?

Há um ou dois anos, a principal tendência deste mercado estava voltada para a produção de energia, ou seja, tudo o que estava relacionado com as energias renováveis. Mas o Governo português parou com estes investimentos, que são de médio e longo prazo. Hoje, em Portugal, estamos mais voltados para a eficiência energética, que é algo [cujas poupanças] se assistem no dia-a-dia.

[Uma questão em cima de mesa, hoje], tem a ver com os edifícios do Estado, que são os que mais atrasados estão na eficiência energética. A legislação [para reverter esta situação] – Eco.AP – foi aprovada no ano passado mas só agora está a ser aplicada.

Vemos hoje, cada vez mais, as pessoas a apostarem na questão da utilização racional de energia, e menos na produção mais eficiente.

Podemos dizer que a crise económica foi benéfica para o desenvolvimento da sua área de negócio, a eficiência energética?

Sim. O custo da energia está a subir e, por isso, as questões relacionadas com a eficiência energética são extremamente favoráveis. Porque elas ajudam a poupar. O IVA da electricidade subiu, o aumento dos combustíveis é quase diário e isso faz com que os retornos de investimento dos projectos de eficiência energética sejam mais curtos. Isso facilita o investimento nesta área, apesar da falta de recursos.

Estamos a assistir a uma fase em que os projectos que teriam retornos de investimento a três anos passam para ano e meio. As pessoas já ponderam esse investimento.

Temos assistido a um aumento brutal no preço da electricidade. A Schneider Electrica tem soluções para o mercado residencial, acessíveis a qualquer pessoa?

A Schneider trabalha todos os segmentos do mercado: residencial, serviços, indústrias, infraestruturas e data centers. Em todas estas áreas temos soluções adaptadas a cada um dos mercados. Temos equipamentos para os clientes residenciais: gestão da climatização e aquecimentos, que é um dos pontos de maior consumo energético nas habitações; controlo da iluminação.

Temos soluções isoladas – um simples detector de movimento ou um interruptor horário – ou soluções mais integradas, como domótica e automação da habitação, que permite uma maior flexibilidade e aumentar a eficiência energética da instalação.

Quanto pode poupar uma família de quatro pessoas, com gastos energéticos entre os €90 e €100 por mês, com as vossas soluções?

Cada caso é um caso, não podemos generalizar. Depende do sítio da habitação – norte, centro ou sul do País; a orientação do edifício e a exposição solar; e o tipo de construção. Há imensas variáveis. O que estimamos é que, em média, se consiga poupar 30% de energia. Em qualquer tipo de mercado, aliás.

E em quantos meses se consegue o retorno do investimento?

Depende das soluções. Uma solução mais integrada terá retornos mais elevados. Mas hoje conseguimos soluções com retornos de investimento de um ano, em muitos casos.

E estas soluções são caras?

Há vários níveis de investimento e soluções. Poderá ser um simples interruptor horário ou detector de movimento. Pode comprar um detector de movimento por €50 ou €100, preço de tabela. Ou seja, não é um preço muito exagerado. Mas as poupanças poderão ser maiores ou menores.

E onde podem as pessoas dirigir-se para conhecerem as vossas soluções para o mercado residencial?

Temos uma rede de parceiros, distribuidores e integradores de sistema e eficiência energética.

E as empresas, como podem elas incorporar estas soluções de eficiência energética a curto prazo? Qual a vossa estratégia para as empresas?

Há vários segmentos, porque os edifícios não são iguais. As grandes áreas de actuação nos edifícios são o controlo do AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado). Aí temos soluções de gestão técnica de edifícios – desde alarmes e funcionamento dos sistemas até à regulação das necessidades. Estes sistemas permitem também integrar o controlo da iluminação, que é o segundo grande consumidor de energia dos edifícios.

Mas, como lhe disse, depende das especificidades. Se tivermos a falar de um supermercado, por exemplo, há um outro grande consumidor de energia, o frio industrial. Nos hospitais, a parte de produção de vapor, aquecimento e água quente sanitária é muito importante de analisar, para além de toda a rede de comunicações.

Os edifícios públicos são grandes consumidores de energia.

Sim, é verdade. Em Portugal, os edifícios públicos consomem mais energia que a iluminação pública, o que dá para ver a dimensão do problema.

E qual é a estratégia deste Governo para reduzir a factura energética dos edifícios públicos?
É apoiar-se nos privados. O Eco.AP prevê contratos de performance, que já existem noutros sítios da Europa. Já foram feitas algumas experiências ao nível do privado, mas não do público. Neste caso, porém, investimento será dos privados e estes serão remunerados pelas poupanças alcançadas nesse determinado edifício.

E já trabalham algum edifício do Estado?

Sim, mas não abrangido pelo Eco.AP, uma vez que a fase inicial deste programa está marcada para o segundo semestre, altura em que o Governo decidirá quais os primeiros 30 edifícios [a colocar na lista]. Mas temos tido resultados muito interessantes.

E com que poupanças?
Entre os 15 e os 30%, dependendo dos locais e das soluções. Tivemos um projecto-piloto no Ministério das Finanças, nas repartições. Também estivemos presentes no Parque Escolar, na remodelação de algumas escolas. Curiosamente, também desenvolvemos soluções para o próprio edifício-sede da EDP, que nos subcontratou. Aqui, a EDP teve um retorno de investimento de três anos, três anos e meio.

Para terminar esta primeira parte da entrevista: os portugueses sabem poupar energia?

Sabem, mas ainda têm de aprender. Ainda há muito a fazer.

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