Canal das Nicarágua vai destruir florestas tropicais e aldeias

No Verão de 2013, a Assembleia Nacional de Nicarágua aceitou a proposta de €30 mil milhões (R$87 mil milhões) de um consórcio chinês para construir um canal que atravessará o país. O novo canal terá mais de 240 quilómetros de extensão, ultrapassando o Canal do Panamá, não muito distante.

A construção do canal, que ligará o oceano Atlântico ao Pacífico, será realizada pela HKDN, uma empresa de Hong Kong. Além do canal deverão ser ainda construídos dois portos de águas profundas, um oleoduto, uma linha férrea e um aeroporto internacional.

O arranque das obras deveria ocorrer em Junho deste ano, mas foi adiado para o final do ano. O Governo de Nicarágua, segundo refere o Ecologist, afirma que o projecto vai retirar o país da pobreza, onde cerca de 45% da população vive com menos de €1,5 por dia.

Porém, ainda não existem nenhuns estudos económicos e os profissionais do sector expressaram já a preocupação de que o canal seja apenas outra “economia de enclave”, como foi para o Panamá, já que este canal não será propriedade do país – pelo menos nos próximos 100 anos. Durante o próximo século. O canal vai pertencer à HKDN e não vai ter grande ligação com a economia local. O medo dos economistas é que a passagem não crie riqueza no país nem impulsione a economia da Nicarágua.

Impacto ambiental

Além dos riscos económicos, existem também os riscos ambientais – esses sim, são certos. Quando a proposta foi aprovada não havia ainda nenhum estudo sobre o impacto ambiental da construção. Os primeiros estudos já foram concluídos e os resultados da construção serão a destruição de florestas tropicais, pequenas aldeias e da vida selvagem.

Será necessário escavar cerca de 300 quilómetros para ligar o oceano Pacífico às Caraíbas, o que corresponde a três vezes o comprimento do Canal do Panamá. Embora o trajecto final da ligação ainda não esteja completamente delineada, é bastante provável que o canal atravesse o Lago Nicarágua, o maior reservatório de água doce da região, e destrua florestas tropicais e pântanos ecologicamente vulneráveis. A fauna e a flora na região subjacente ao lago é de grande biodiversidade e muitos destes animais poderão estar em risco. Antes da aprovação da proposta não foi elaborado nenhum estudo sobre o impacto ecológico da construção do novo canal.

Uma vez construído, o canal vai gerar uma segunda onda de impactos, incluindo a poluição inevitável e a introdução de espécies invasivas trazidas pelos navios. Em última consequência, estes impactos podem levar à extinção de muitas espécies de peixes importantes para as comunidades piscatórias subjacentes. Os tubarões-touro, o peixe-serra e o tarpão, são algumas das espécies locais que podem ser afectadas.

Paralelamente, também terão de ser realojadas várias comunidades locais e indígenas – e isto coloca um sério problema para estas últimas comunidades, já que terão de deixar os seus lares ancestrais. Com receio de perder as duas propriedades e a segurança alimentar, muitas comunidades processaram já o Estado por não ter feito qualquer tipo de consultoria sobre a construção do canal e por violar os direitos territoriais.

Foto:  Cosabuena / Creative Commons

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