Estima-se que entre 85% e 90% da população humana mundial tenha a mão direita como a mão dominante, e que os restantes 10% ou 15% sejam esquerdinos.
Mas por que razão é que isso acontece? Os humanos são a única espécie de primata que tem uma preferência a esta escala no que toca a mãos, um mistério evolutivo que se tem mantido por resolver apesar de décadas de investigação neurológica e genética.
Agora, um grupo de cientistas acredita ter descoberto dois elementos fundamentais da evolução humana que podem ajudar a explicar a dominância da mão direita na nossa espécie. Num artigo publicado na revista ‘PLOS Biology’, dizem que o bipedismo, ou seja, a locomoção em duas pernas, e a grande expansão do cérebro são as razões que explicam porque é que a maioria dos Homo sapiens é destra.
A equipa, constituída por Thomas Püschel e Rachel Hurwitz, da Universidade de Oxford, e Chris Venditti, da Universidade de Reading, debruçou-se sobre dados de mais de 2.025 indivíduos de 41 espécies de primatas, incluindo gorilas, chimpanzés, orangotangos e cercopitecídeos, entre muitos outros. Ao usarem modelos que representam as relações evolutivas entre essas espécies, os investigadores tentaram perceber que fatores influenciam o domínio de um lado do corpo sobre o outro, como a utilização de ferramentas, a dieta, o habitat, a massa corporal, a organização social, o tamanho do cérebro e o tipo de locomoção.
Explica Püschel que este é o primeiro estudo a testar, de uma só assentada, “várias das principais hipóteses” para a lateralidade humana, ou seja, para a preferência de um lado em vez do outro. “Os nossos resultados sugerem que isso provavelmente está relacionado com algumas das principais características que fazem de nós humanos”, acrescenta, como o facto de andarmos direitos e a evolução de cérebros grandes.
“Ao olharmos para várias espécies de primatas, podemos começar a compreender que aspetos da lateralidade são ancestrais e partilhados e quais são unicamente humanos”, salienta.
Os investigadores lançaram-se também no estudo da lateralidade em antepassados da espécie humana. Os primeiros hominíneos (grupo que inclui humanos modernos, espécies humanas extintas e os nossos antepassados mais próximos) como os Ardipithecus e os Australopitecos, provavelmente tiveram uma ligeira preferência, não muito destacada, pela mão direita, algo que os cientistas dizem ser semelhante ao que se vê nos gorilas dos dias de hoje.
No entanto, quando emergiu o género Homo, essa preferência acentuou-se, pelo que terá sido exibida por Homo ergaster, Homo erectus e os Neandertais, chegando até nós. Ainda assim, com base nos dados recolhidos, é possível que o Homo floresiensis, pequena espécie humana da Indonésia, não tenha tido uma preferência tão marcada pela mão direita, algo que os investigadores dizem ser consistente com as suas descobertas, uma vez que se tratava de uma espécie com um cérebro mais pequeno e que não era totalmente bípede.
Assim, a história evolutiva do domínio da mão direita nos humanos modernos terá acontecido em duas etapas. Primeiro, veio a marcha bípede e ereta, que libertou as mãos da tarefa da locomoção e que permitiu o desenvolvimento de uma lateralidade manual mais fina e marcada. A seguir, vieram os cérebros maiores, o que consolidou a preferência naquilo que quase é um padrão universal atualmente.
Por que razão a preferência pela mão esquerda ainda persiste em cerca de um décimo da população humana mundial é algo que os cientistas ainda estão por descobrir. Além disso, é também ainda pergunta sem resposta o porquê de alguns animais demonstrarem também preferência pelos membros de um lado e não do outro, o que pode, especulam estes investigadores, apontar para uma “história mais profunda e convergente” que abrange de forma mais ampla o reino animal.









