Para ser possível abandonar, ainda que progressivamente, os combustíveis fósseis até 2050 a produção de eletricidade a nível global terá de ser entre 60% e 80% superior ao que está projetado nos planos para manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 graus Celsius.
A conclusão é de uma análise publicada recentemente na ‘Nature Communications’, liderada pela Universidade de Quioto (Japão) e pelo IIASA – Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicada (Áustria).
O estudo aponta ainda que a eliminação dos combustíveis fósseis poderá reduzir significativamente a dependência a longo-prazo de tecnologias de remoção de dióxido de carbono da atmosfera e de sequestro carbónico subterrâneo.
Em 2023, durante a 28.ª cimeira climática das Nações Unidas (COP28), quase 200 países, reunidos no Dubai, concordaram em dar início ao fim da era dos combustíveis fósseis, comprometendo-se com o abandono progressivo dessas fontes energéticas poluentes e com a neutralidade carbónica do setor da energia até 2050.
Contudo, para isso, é preciso muito mais eletricidade do que aquela com que se está a contar atualmente, o que passará, por exemplo, pela aceleração do aumento da capacidade instalada das renováveis, dos sistemas energéticos baseados no hidrogénio verde e da própria eletrificação.
Dizem os investigadores que quanto mais cedo o mundo conseguir abandonar os combustíveis fósseis maior será a probabilidade de o sistema climático conseguir voltar a um aumento de 1,5 graus Celsius, face a níveis pré-industriais, após esse limite do Acordo de Paris ser ultrapassado, algo que já aconteceu.
Além disso, os autores deste trabalho apontam que os cenários de “zero fóssil” exigirão também mais e maiores investimentos na transformação do setor da energia e alterações profundas na procura e nos padrões de consumo de energia.
“Os resultados mostram que abandonar progressivamente os combustíveis fósseis não se trata apenas de substituir uma fonte de combustível por outra”, refere Volker Krey, do IIASA e coautor do estudo.
“Implica uma reestruturação profunda dos sistemas energéticos globais, dos processos industriais, do investimento em infraestruturas, e dos padrões de comércio internacionais. Por exemplo, comparando com os dias de hoje, estamos a falar de um aumento de 2,5 a três vezes na média dos investimentos anuais na produção de eletricidade não fóssil entre 2026 e 2050”, detalha.
Com este estudo, os investigadores querem mostrar que o abandono progressivo e total dos combustíveis fósseis é tecnicamente possível, mas, para o mundo ir ainda a tempo da meta dos 1,5 graus de Paris, é preciso acelerar a transição.









