O contacto físico pode ser uma importante ferramenta na história da evolução das sociedades de primatas, ajudando a gerir tensões sociais e conflitos e a manter a paz.
Esta é a principal conclusão de um estudo liderado pela Universidade de Durham, no Reino Unido, que estudou, entre março e setembro de 2019, o comportamento de chimpanzés (Pan troglodytes) e bonobos (Pan paniscus), considerados os parentes evolutivos mais próximos da espécie humana e com os quais partilhamos 99% do ADN.
O trabalho teve como protagonistas mais de uma centena de indivíduos residentes em dois santuários africanos: um na República Democrática do Congo e o outro na Zâmbia. E os resultados mostram que o contacto físico, como um abraço, um toque ou um beijo, por exemplo, pode ser fundamentais para a estabilidade dos grupos.
De acordo com o estudo, publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B – Biological Sciences’, os chimpanzés e bonobos que, antes de eventos socialmente tensos, como alimentação, tocavam uns nos outros de forma tranquilizadora, quase em jeito de consolo, passavam depois mais tempo a alimentar-se próximos de outros de forma pacífica.
Os cientistas interpretam esses gestos como uma forma de esses primatas fortalecerem laços sociais antes de situações que podem gerar stress e conflitos, como a competição por alimento.
O facto de essa prática ter sido observada em duas espécies distintas leva os investigadores a crer que se trata de um comportamento que pode ter pelo menos seis milhões de anos, com origem num antepassado comum dos chimpanzés, bonobos e humanos.

Ainda assim, há diferenças a notar. No caso dos bonobos, os pares de fêmeas eram os que mais exibiam o comportamento de “toque pacificador”, o que os autores do estudo dizem refletir a importância, nas sociedades de bonobos, das alianças femininas, que ajudam a contrariar a agressividade dos machos e a dar às fêmeas estatutos sociais mais elevados.
Os chimpanzés são diferentes, pois a maior parte do contato físico amigável e tranquilizador foi registado entre machos, o que reflete a importância dos laços sociais masculinos na estrutura social destes primatas.
“O toque social é uma poderosa ferramenta de comunicação, presente muito antes da linguagem e, provavelmente, umas das primeiras formas através das quais os laços sociais se formam”, explica Jake Brooker, primeiro autor do artigo.
Por seu lado, Zanna Clay, principal coautora, diz que “o nosso estudo destaca o papel antigo e profundamente poderoso que o toque desempenha na regulação das nossas relações sociais, especialmente durante alturas tensas quando as emoções estão ao rubro”.
“É impressionante que muitos dos comportamentos de tranquilização que observámos nos nossos primos primatas mais próximos sejam idênticos aos que também vemos nos humanos hoje em dia. Isso realça o quanto ainda dependemos de ferramentas comportamentais preservadas, que remontam a milhões de anos, para navegarmos pelos nossos mundos sociais, especialmente em momentos mais difíceis”, acrescenta a psicóloga.









