Acabadas de descobrir e já em risco: Expedição a Moçambique revela quatro novas espécies de camaleão ameaçadas pela desflorestação

Entre 2014 e 2018, os investigadores Krystal Tolley e Werner Conradie esquadrinharam os mundos florestais dos inselbergues moçambicanos, que consistem em montanhas que se erguem, isoladas e até aos três mil metros, numa paisagem de planície de savana.

Filipe Pimentel Rações

Nas florestas das montanhas graníticas no norte de Moçambique, um grupo de cientistas descobriu quatro novas espécies de camaleões do género Nadzikambia, até agora desconhecidas, mas já ameaçadas.

Entre 2014 e 2018, os investigadores Krystal Tolley e Werner Conradie esquadrinharam os mundos florestais dos inselbergues moçambicanos, que consistem em montanhas que se erguem, isoladas e até aos três mil metros, numa paisagem de planície de savana.

Por terem declives muito acentuados, essas “montanhas-ilhas” atraem nuvens e humidade que alimentam florestas húmidas e uma rica biodiversidade, com espécies únicas que seguiram histórias evolutivas singulares nesses locais separados do resto do mundo que se estende à volta.

Foi nesses ecossistemas invulgares que a dupla de investigadores encontrou as novas espécies de camaleão, batizadas com nomes científicos que homenageiam mulheres cientistas pioneiras, que chamam a atenção para os perigos que esses animais enfrentam ou que são referências aos locais onde vivem: Nadzikambia franklinae (em homenagem a Rosalind Franklin, química britânica que teve um papel central na descoberta da estrutura do ADN), N. goodallae (em homenagem à primatóloga e conservacionista Jane Goodall), N. evanescens (o epíteto específico evanescens deriva da palavra latina para “a desaparecer”, uma referência ao desaparecimento da floresta no local onde foi encontrada) e N. nubila (o epíteto específico nubila é uma referência à palavra latina para nuvem, que alude aos nuvens que alimentam a floresta húmida onde vive).

A espécie N. franklinae foi descoberta no Monte Namuli, a N. evanescens no Monte Inago, a N. goodallae no Monte Ribáuè e a N. nubila no Monte Chiperone, todos esses locais nas províncias da Zambézia e de Nampula, em Moçambique, um dos 10 países mais biodiversos de África.

Monte Inago, na província de Nampula, em Moçambique. Foto: Krystal Tolley, CC BY.

Os cientistas Tolley e Conradie, cujas descobertas foram publicadas na revista ‘Vertebrate Zoology’, admitem desconhecer a dimensão das populações de cada uma destas espécies, mas consideram que estão em declínio. Isto, porque a maior parte do seu habitat foi já destruído pela desflorestação para abrir caminho para a agricultura. Em alguns casos, entre 80% e 90% dos habitats destas novas espécies foram já devastados.

Estima-se que cerca de 25% das florestas tropicais em África tenham sido perdidas desde 1990, com consequências sérias para a grande biodiversidade, ainda amplamente desconhecida, que caracteriza esse continente. Por isso, é expectável que estejam a desaparecer espécies sem que alguém alguma vez as tenha formalmente descrito, lamentam os investigadores.

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