Um investigador da Universidade da Sunshine Coast (UniSC), na Austrália, registou pela primeira vez em vídeo uma cena rara — e pouco comum — de acasalamento entre tubarões-leopardo em ambiente selvagem, nas águas cristalinas da Nova Caledónia.
A descoberta, feita pelo biólogo marinho Hugo Lassauce, revelou um comportamento inesperado: dois machos da espécie envolveram-se, de forma sequencial, com a mesma fêmea, numa espécie de “trio” subaquático. O momento foi captado em detalhe e está descrito num artigo publicado na Journal of Ethology.
Segundo o investigador, este é o primeiro registo científico conhecido de dois machos da espécie Stegostoma tigrinum a copularem sucessivamente com uma fêmea em meio natural. Todos os tubarões envolvidos tinham cerca de 2,3 metros de comprimento.
“Já é raro observar o acasalamento de tubarões no seu habitat natural, mas fazê-lo com uma espécie em perigo e ainda conseguir filmar tudo foi algo verdadeiramente entusiasmante. Quando voltei ao barco, a equipa inteira celebrou”, conta Lassauce, que colabora com o Aquarium des Lagons, em Nouméa.
Durante um ano, o cientista fez mergulhos semanais a cerca de 15 km da costa, como parte do programa de monitorização do aquário. Ao longo desse período, tinha assistido a comportamentos de corte entre machos e fêmeas, mas nunca tinha conseguido observar o acasalamento completo — até agora.
“Estava a monitorizar um grupo de tubarões-leopardo quando vi uma fêmea acompanhada por dois machos que a agarravam pelas barbatanas peitorais, no fundo do mar. Pedi ao meu colega para afastar o barco, para evitar interferências, e fiquei à superfície a observar”, explica.
“Esperei cerca de uma hora, a tremer de frio, até que finalmente começaram a subir. A cópula foi rápida — o primeiro macho demorou 63 segundos, o segundo 47. Depois disso, ambos ficaram imóveis no fundo, exaustos, enquanto a fêmea se afastou com energia”, adianta.
Os dois machos já tinham sido identificados em mergulhos anteriores, alguns desde 2018.
Conhecido também como tubarão-zebra, por causa das riscas que os juvenis apresentam antes de ganharem as manchas típicas, o Stegostoma tigrinum é uma espécie costeira da região Indo-Pacífica, classificada como em perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Até agora, os seus comportamentos reprodutivos eram praticamente desconhecidos fora de cativeiro.
O estudo, coassinado pela investigadora da UniSC Christine Dudgeon — especialista com mais de 20 anos de trabalho com tubarões-leopardo —, pelo diretor científico do aquário Olivier Chateau e pelo assistente de investigação Hugues Gossuin, oferece uma nova perspetiva sobre esta espécie pouco social.
“Estas imagens mostram que a zona onde foram captados pode ser um habitat reprodutor crucial. Isso pode ajudar a orientar medidas de conservação e também a compreender melhor os padrões populacionais e comportamentos da espécie”, explica Dudgeon.
Este tipo de observações pode ainda ser útil para programas de inseminação artificial que procuram reintroduzir a espécie na natureza — iniciativas que já decorrem em países como a Austrália.
“É surpreendente termos visto dois machos envolvidos neste processo, um a seguir ao outro. Do ponto de vista da diversidade genética, queremos perceber quantos machos realmente contribuem para os ovos que as fêmeas põem todos os anos”, conclui.









