Temperaturas acima dos 40 graus Celsius em muitas regiões de Portugal continental e cerca de dois terços do território sob aviso vermelho. É assim que começa julho, com uma onda de calor que leva os termómetros para máximos históricos em muitos locais, que resseca a terra e faz olhar com apreensão para o que ainda poderá estar por vir.
Isto, depois de um arranque de 2026 que nos presenteou com um “comboio de tempestades” que deixou diversas localidades em estado de calamidade, que destruiu casas, devastou florestas, desalojou famílias, interrompeu negócios e converteu aldeias em réplicas catastróficas de Veneza.
Ainda há estradas destruídas, autarquias, famílias e empresas à espera de apoios financeiros para se reerguerem, telecomunicações que aguardam regularização do serviço, ao mesmo tempo que o calor volta a apertar Portugal e muitos outros países da Europa.
Esta semana a Representação da Comissão Europeia em Portugal recorreu às suas redes sociais online para transmitir uma mensagem ominosa, mas nem por isso inesperada ou divergente dos alertas feitos há anos pelos cientistas: “A Europa está a aquecer ao dobro da média global. Os verões que hoje consideramos extremos podem muito bem tornar-se a norma amanhã”.
Se o calor extremo poderá tornar-se a norma, é preciso pensar, entre outras coisas, sobre a adaptação, especialmente de infraestruturas críticas como a energia, as telecomunicações e as vias de transporte. Recentemente, um troço dos caminhos-de-ferro entre as cidades britânicas de Leamington Spa e Coventry esteve inoperacional por causa de deformação causada pelas altas temperaturas, e carris de elétrico na cidade alemã de Leipzig derreteram.
É um exemplo entre muitos outros, mas ilustra bem o que o futuro nos reserva. No final de junho, a Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) lançou um relatório no qual antevê grandes riscos para os sistemas de transporte (estradas, ferrovia, portos e aeroportos) na Europa, Ásia Central e América do Norte. A análise diz que se espera que esses sistemas enfrentem “condições climáticas ainda mais adversas” já a partir de 2051, incluindo cheias, calor extremo e aumento do nível do mar.
Os analistas estimam que as infraestruturas de transporte terão de conseguir suportar um aumento de 10 a 50 dias por ano de temperaturas acima dos 25 graus, com algumas áreas a poderem experienciar até 200 dias adicionais acima desse limiar. Isso aumenta o risco de deterioração dos pavimentos, de expansão térmica das juntas de dilatação das pontes, de deformação de caminhos-de-ferro e de incêndios em torno dessas infraestruturas.
Sabendo que o verão ainda agora começou, estará Portugal preparado para lidar com o calor extremo? Serão as infraestruturas críticas nacionais de transporte, energia e comunicações capazes de lidar com as temperaturas elevadas que se preveem?
Um clima que pode já não existir
“De um modo geral, as infraestruturas de energia, comunicações e transportes em Portugal apresentam um nível razoável de robustez”, diz-nos Elói Figueiredo, engenheiro civil e professor catedrático da Universidade Lusófona, em Lisboa. “Contudo, o clima para o qual grande parte das infraestruturas portuguesas foi projetada poderá já não existir”, acrescenta.

O especialista em resiliência de infraestruturas, e coordenador do centro de investigação RISE – Resilient Infrastructure Systems and Environment, explica que, ao longo de décadas, as infraestruturas em Portugal foram sendo “sucessivamente construídas, adaptadas e sobrepostas”, o que criou “um sistema infraestrutural complexo” no qual coexistem “diferentes gerações, níveis de conhecimento e pressupostos de projeto”.
Grande parte das estradas, das linhas ferroviárias, pontes e sistemas energéticos “foi projetada assumindo um clima relativamente estável”, mas “num contexto de extremos climáticos cada vez mais frequentes, essa premissa deixou provavelmente de ser válida”, avisa.
O calor extremo causa deformações que levam ao limite a capacidade de tolerância de carris e pontes, aceleram a degradação de estradas e sobreaquecem equipamentos elétricos, “o que pode resultar em interrupções temporárias”, avança. Mas o problema não é só das infraestruturas e também se reflete ao nível da qualidade dos serviços prestados.
Elói Figueiredo dá como exemplo “episódios de desconforto térmico” no comboio de longo curso Alfa Pendular, que de desloca entre o Norte e do Sul do país, em alturas de grande calor. Aponta também a “interrupção intermitente” que durante várias semanas atingiu a Linha do Norte devido a inundações e quedas de árvores causadas pelo “comboio de tempestades”, o que, para ele, “provou a falta de resiliência climática da linha ferroviária”.
No dia 3 de julho, a CP – Comboios de Portugal emitiu um aviso no qual dizia, precisamente, que devido à onda de calor que atingia o país era possível a ocorrência de “alterações às condições de circulação e de conforto de alguns comboios”, deixando claro a exposição dessas infraestruturas aos piores efeitos das alterações climáticas.
O conhecimento já existe
Apesar de reconhecer que Portugal está hoje “mais bem capacitado do que há uma década” para responder a fenómenos climáticos fora do comum, e que os responsáveis pela gestão das infraestruturas críticas estão a adquirir “uma cultura de ação”, o catedrático diz que o país continua numa “fase de adaptação reativa”. Ou seja, responde aos eventos depois de acontecerem, “em vez de antecipar sistematicamente riscos futuros”, lamenta.
O conhecimento sobre como adaptar as infraestruturas ao clima que hoje temos já existe, diz-nos Elói Figueiredo, pelo que “o grande desafio” estão em convertê-lo em normas, investimentos e decisões “antes que os danos se tornem mais caros do que a prevenção”.
No que toca a infraestruturas já existentes, o especialista diz que a adaptação climática deve ser central na reabilitação. Entre 2021 e 2023, coordenou o projeto “ClimaBridge”, que estudou o impacto do aumento uniforme da temperatura numa ponte de betão armado no norte do país, construída na década de 1990. Percebeu-se que as normas da altura subestimavam “significativamente” os efeitos das variações de temperatura.
Contudo, as normas europeias relativas ao projeto de estruturas de edifícios e de outras obras de engenharia civil, os chamados Eurocódigos Estruturais, já oferecem “uma margem de segurança mais adequada para enfrentar um clima em mudança”, descreve Elói Figueiredo. “É um novo paradigma no dimensionamento, baseado em projeções futuras e não apenas em dados históricos”, salienta.
Assim, “a ciência e a tecnologia necessárias já existem em muitos domínios”, diz, pelo que resta incorporá-las integralmente na forma como se concebem, implementam, gerem e reabilitam as infraestruturas.
Energia e comunicações
Também as redes energéticas estão a ser impactadas por fenómenos climáticos extremos, agora, especificamente, pela onda de calor. Por exemplo, em França um “apagão” deixou quase 70.000 casas sem eletricidade depois de uma falha num transformador relacionada com o calor extremo.
Em Portugal, a ministra do Ambiente e Energia admite a possibilidade de “apagões” localizados devido a uma eventual “sobrecarga da utilização da eletricidade”. Mais calor leva a um maior consumo de eletricidade para aparelhos de refrigeração, como ar condicionado, que sobrecarregam a rede.
“Temos uma rede neste momento muito resiliente, mas não estamos livres disso poder acontecer, como aconteceu em França e em outros países da Europa”, reconhece Maria da Graça Carvalho.
Elói Figueiredo explica que as altas temperaturas e ondas de calor mais frequentes “elevam a probabilidade de perturbações nos sistemas energéticos”. E isso pode traduzir-se, diz-nos o especialista, na redução da eficiência das linhas elétricas, dos transformadores e dos centros de dados. A juntar a isso, o aumento do consumo de eletricidade devido à “utilização intensiva” de sistemas de ar condicionado é mais um fator de pressão.
“A resiliência das infraestruturas energéticas é cada vez mais determinante num clima em mudança”, e “o mesmo raciocínio pode ser aplicado às infraestruturas de comunicação, cuja operação depende da disponibilidade de energia e do controlo térmico dos equipamentos”, aponta o catedrático.
“O aumento da resiliência das infraestruturas energéticas e de comunicação deverá privilegiar a redundância, a descentralização e a capacidade de recuperação rápida após eventos extremos”, defende.
É preciso ir mais longe
No passado mês de junho, o Governo aprovou a nova Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 (ENAAC2030), que tem como um dos objetivos estratégicos “acelerar a implementação de medidas de adaptação, integrando o risco climático no planeamento, promovendo o ‘climate proofing’ das infraestruturas e atividades, e acelerando a execução de medidas concretas”.
Por todo o documento encontram-se referências aos riscos representados pelas alterações climáticas às infraestruturas em Portugal, bem como à importância de agir para reforçar a sua resiliência a fenómenos extremos. Ainda que seja “um passo importante”, Elói Figueiredo considera que o ENAAC2030 é “insuficiente para garantir a resiliência climática das infraestruturas portuguesas nas próximas décadas”.
Como “grande crítica”, aponta o facto de Portugal não ter ainda “um programa nacional de adaptação das infraestruturas críticas, com prioridades, metas e financiamento claramente definidos”.
“A adaptação climática está a ganhar visibilidade em Portugal, mas a efetivação está ainda longe da dimensão que o problema exige”, sublinha Elói Figueiredo, explicando que “ainda não está sistematizada a integração das projeções climáticas e do risco climático no planeamento das infraestruturas e na priorização de investimentos preventivos na adaptação”.
Mas a responsabilidade não pode ser somente imputada ao Estado central, que, reconhece o especialista, tem um “papel insubstituível” na definição de estratégias nacionais, na regulamentação e no financiamento de infraestruturas críticas. Também os municípios são chamados a contribuir.
Explica o catedrático da Lusófona que as autarquias desempenham “um papel fundamental”, pois “são responsáveis pelo ordenamento do território, pela gestão de grande parte da rede viária local, pela drenagem urbana, pela proteção civil e pela resposta de proximidade às populações”. Por isso, destaca como “decisiva” a integração das alterações climáticas nos instrumentos de planeamento municipal e nos investimentos em infraestruturas locais “para aumentar a resiliência do território português”.
As empresas que gerem sistemas de transportes, energia e comunicações são outros dos intervenientes indispensáveis. Para Elói Figueiredo, essas entidades “têm a responsabilidade de incorporar o risco climático na gestão dos seus ativos e de desenvolver planos de adaptação e continuidade de serviço”. Ainda assim, reconhece que a mobilização dessas empresas para estes esforços “dependerá muito do retorno financeiro imediato da adaptação”.
Ainda não é uma prioridade política
Apesar de estar cada vez mais presente nos debates públicos e políticos, especialmente depois dos eventos extremos que têm assolado o país desde o início do ano, a adaptação climática das infraestruturas críticas “ainda não se tornou uma prioridade política ao mesmo nível de outras áreas”, considera o coordenador do centro de investigação RISE.
E isso é explicado, pelo menos em parte, pelo facto de os “benefícios do investimento preventivo” serem “menos visíveis do que os custos da reconstrução após catástrofe”, explica Elói Figueiredo, que sentencia que “continuamos a investir mais na reparação dos danos do que na redução das vulnerabilidades”.
Para que esse paradigma se altere, “é necessário quantificar economicamente os riscos, demonstrar que a adaptação precoce é mais barata do que a reconstrução reativa e criar mecanismos estáveis de financiamento para a resiliência climática”, esclarece o catedrático. E acrescenta que “o investimento em adaptação deve ser encarado como uma política de segurança nacional e de competitividade económica”.
Estima-se que as tempestades do início do ano terão já este ano um impacto de cerca de mil milhões de euros, cerca de 0,3% do PIB, na receita fiscal e contributiva, um efeito que ainda se fará sentir em 2027, com um impacto previsto de 300 milhões.
Descrevendo as infraestruturas de energia, comunicações e transportes como “a espinha dorsal de sociedades modernas”, cujas falhas “propagam-se rapidamente” pela economia, pelos serviços públicos e pela vida quotidiana de todas as pessoas, Elói Figueiredo sentencia que investir na sua resiliência climática é, na sua essência, “reduzir perdas económicas, proteger vidas humanas, aumentar a segurança do território e garantir a continuidade de serviços essenciais”.









