Adaptação climática no Algarve: estamos a medir o que importa?

Nos últimos anos, têm sido propostas e/ou implementadas várias medidas: projetos de dessalinização, reutilização de águas residuais, intervenções de proteção costeira, iniciativas de restauro ecológico e planos regionais de adaptação. O problema já não é a ausência de ação.

Redação

Por Maria João Sacadura, Environmental Policy & Sustainability | Monitoring & Evaluation 

O Algarve está entre as regiões da Europa onde os impactos das alterações climáticas se fazem sentir de forma mais precoce e intensa. A escassez de água, a maior frequência de fenómenos extremos e a pressão crescente sobre os ecossistemas tornam a adaptação climática não apenas uma prioridade, mas uma urgência.

Nos últimos anos, têm sido propostas e/ou implementadas várias medidas: projetos de dessalinização, reutilização de águas residuais, intervenções de proteção costeira, iniciativas de restauro ecológico e planos regionais de adaptação. O problema já não é a ausência de ação.

A questão é outra: sabemos se estas medidas estão a funcionar?

Grande parte das respostas continua a ser reativa, surgindo após eventos extremos, em vez de antecipar riscos. E, mesmo quando são implementadas medidas de adaptação, raramente existe uma avaliação sistemática dos seus resultados. Falta uma visão integrada que permita perceber o impacto real das múltiplas iniciativas em curso.

Este não é um problema de falta de dados. Os sistemas de abastecimento de água são monitorizados, existem indicadores energéticos e os impactos ambientais estão amplamente documentados. O que falta é ligar estes dados a objetivos concretos de política pública, através de sistemas de monitorização e avaliação consistentes.

O mesmo padrão repete-se em vários setores.

Na energia, o progresso é frequentemente medido em capacidade instalada de fontes renováveis. No entanto, isso pouco nos diz sobre a resiliência dos sistemas, o acesso das comunidades ou a sua capacidade de resposta a perturbações.

Na gestão da água, fala-se na reutilização, na redução de perdas e na futura central de dessalinização. Mas persistem fugas nas redes, a reutilização avança lentamente e subsistem dúvidas sobre a prioridade das soluções escolhidas.

Ao mesmo tempo, continuam a expandir-se modelos agrícolas intensivos e altamente consumidores de água, enquanto a pequena agricultura local enfrenta dificuldades crescentes.

Também os ecossistemas revelam esta fragilidade. A erosão costeira, a perda de biodiversidade e a pressão sobre os recursos naturais estão bem identificadas. Mas, sem indicadores claros de resiliência e recuperação, torna-se difícil avaliar se os esforços de conservação estão a produzir resultados duradouros.

O maior desafio poderá, no entanto, estar na governação. A participação pública, a transparência e a coordenação institucional são reconhecidas como essenciais para uma adaptação eficaz. Ainda assim, raramente são avaliadas de forma sistemática. Sem métricas, não é possível perceber se os sistemas de governação estão a funcionar ou a responder adequadamente aos riscos.

Sem medição, não há responsabilização. E, sem responsabilização, a adaptação climática corre o risco de se tornar simbólica, em vez de eficaz.

Este vazio tem consequências práticas. Limita a capacidade de decisão dos responsáveis políticos, reduz a aprendizagem institucional e dificulta o envolvimento das comunidades. Num contexto em que os impactos das alterações climáticas se intensificam, saber o que funciona — e o que não funciona — é fundamental.

A adaptação climática no Algarve não precisa apenas de mais medidas. Precisa de saber se as medidas existentes estão, de facto, a fazer a diferença.

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