Agricultores australianos dão rosto à saúde mental em nova campanha de sensibilização

Intitulada “Enfrentemos o tempo juntos” (Weather it together), a iniciativa reúne testemunhos de agricultores que enfrentaram desafios como depressão pós-parto, luto, isolamento, ruturas familiares e a pressão acumulada da vida no campo, complementados por conselhos práticos de um médico de clínica geral com experiência em comunidades rurais.

Redação

Uma nova série de vídeos criada pela equipa do programa ifarmwell, da Universidade de Adelaide, pretende combater o estigma associado à saúde mental nas comunidades rurais australianas e incentivar os agricultores a procurarem ajuda quando necessário.

Intitulada “Enfrentemos o tempo juntos” (Weather it together), a iniciativa reúne testemunhos de agricultores que enfrentaram desafios como depressão pós-parto, luto, isolamento, ruturas familiares e a pressão acumulada da vida no campo, complementados por conselhos práticos de um médico de clínica geral com experiência em comunidades rurais.

Financiada pela Fundação CMV Group, a série integra uma campanha mais ampla de promoção do bem-estar dos agricultores, apoiada pelo pacote governamental de resposta à seca do estado da Austrália do Sul. O objetivo passa por incentivar hábitos que favoreçam a saúde mental, como manter ligações sociais, concentrar-se no que pode ser controlado, permanecer fisicamente ativo e falar abertamente sobre dificuldades emocionais.

A coordenadora da campanha, Annabelle Ottens, da Universidade de Adelaide, considera que a abordagem adotada permite transmitir mensagens de forma mais próxima da realidade dos agricultores.

“Os agricultores gostam de ajudar outros agricultores, mas durante gerações falar sobre a própria saúde mental foi algo difícil de fazer”, afirma, citada em comunicado.

Segundo a responsável, muitas campanhas tradicionais não conseguem chegar eficazmente a este público. “As campanhas tradicionais de saúde mental muitas vezes falham na ligação aos agricultores porque podem parecer demasiado clínicas ou afastadas da realidade da vida no campo.”

Por isso, a nova série coloca as experiências dos próprios agricultores no centro da narrativa. “Mas, através da campanha Enfrentemos o tempo juntos e desta nova série de vídeos, graças à ajuda destes quatro generosos agricultores, conseguimos colocar as suas vozes e experiências vividas no centro da conversa, ajudando a transmitir mensagens credíveis, práticas e com as quais outros agricultores se podem identificar.”

Ottens acrescenta que ouvir relatos de quem passou por situações semelhantes pode facilitar a procura de apoio. “Quando os agricultores ouvem outros agricultores que enfrentaram desafios semelhantes, isso pode ajudar a quebrar o estigma e tornar mais fácil dar o primeiro passo para procurar ajuda.”

Histórias reais para quebrar o silêncio

Entre os participantes está Ashley Schmidt, agricultor da região sudeste da Austrália do Sul, que relata um período marcado por perdas pessoais, dificuldades profissionais e os desafios permanentes da atividade agrícola.

“Perguntava-me qual era o sentido de tudo isto – porque é que estava a cultivar a terra? E pensava: ‘tem de haver uma forma melhor de viver’”, recorda.

O agricultor admite que dedicava toda a sua energia aos outros, negligenciando o próprio bem-estar. “Estava a tentar ajudar toda a gente a ser feliz e a tornar-se aquilo que precisava de ser, mas eu próprio não era a pessoa que queria ser.”

A decisão de procurar apoio revelou-se determinante. “Ao dar o passo de investir em mim próprio e dedicar tempo a cuidar de mim, tornei-me uma pessoa melhor, alguém capaz de estar presente para todos os que me rodeiam.”

Procurar ajuda é o mais importante

O médico Justin Gladman, clínico geral em Mount Gambier e participante nos vídeos, sublinha que as preocupações relacionadas com a saúde mental são muito mais comuns do que muitos agricultores imaginam.

“Ao longo de um dia, três ou quatro agricultores falam-me de preocupações relacionadas com a saúde mental ou dizem que estão a passar por dificuldades”, refere.

O profissional procura desmistificar o receio de iniciar uma conversa sobre o tema. “Não é necessário entrar no consultório com uma ideia clara sobre as opções de tratamento que pretende. Até dizer simplesmente ‘estou a ter dificuldades’ é suficiente para começar. Noventa por cento do trabalho consiste apenas em iniciar a conversa.”

Prevenção do suicídio continua a ser prioridade

A campanha dedica também especial atenção à prevenção do suicídio, um problema que afeta de forma desproporcionada algumas comunidades rurais.

Annabelle Ottens destaca, contudo, que muitos agricultores encontram formas positivas de lidar com as dificuldades inerentes à profissão e que existe uma crescente abertura para recorrer a apoio especializado. “Mais do que nunca, os agricultores estão a procurar apoio profissional para questões de saúde mental e estamos profundamente gratos a todos os que aceitaram partilhar as suas histórias para ajudar outras pessoas.”

A responsável acredita que dar visibilidade a estas experiências pode ter um impacto significativo. “Ao partilhar estas experiências, esperamos tornar mais fácil para mais agricultores procurarem ajuda, inspirar conversas sobre bem-estar no seio das famílias, dos locais de trabalho e das comunidades, e reduzir o estigma associado à saúde mental e ao suicídio.”

“Estamos convencidos de que partilhar estas histórias tem o poder de salvar vidas.”

Os vídeos incluem testemunhos de agricultores de várias regiões da Austrália do Sul, incluindo Peterborough, Coonalpyn, Kulpara e o extremo norte do estado, passando a integrar uma biblioteca crescente de histórias reais destinada a promover o bem-estar psicológico nas comunidades agrícolas e a contribuir para a prevenção do suicídio.

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