Água doce: A “fonte” da vida está a desaparecer e é preciso agir agora para protegê-la

A água doce é um recurso essencial à vida na Terra. É a base de quase todos os ecossistemas terrestres, das comunidades e economias humanas. Sem ela o nosso futuro poderá transformar-se num cenário distópico digno de filmes, por isso é preciso protegê-la e fazê-lo o quanto antes.

Filipe Pimentel Rações

*Com Ana Filipa Rego

 

A água doce está a desaparecer a um ritmo alarmante. Preocupado? Os cientistas dizem que há razões para isso.

Uma investigação divulgada em julho do ano passado revelou que, desde 2002, os continentes da Terra têm vindo a sofrer perdas “sem precedentes” de água doce. Não será preciso recordar, e adotando conscientemente uma lente antropocêntrica, que a água doce é aquela da qual nós, humanos, dependemos para beber, para regar as nossas culturas, para gerar uma parte importante da nossa eletricidade através de barragens, para mover as nossas economias.

Num artigo publicado na revista ‘Science Advances’, os investigadores apontam como as principais causas dessas perdas as alterações climáticas, o uso insustentável e os fenómenos, cada vez frequentes, de secas extremas.

A equipa, encabeçada por Hrishikesh A. Chandanpurkar, da FLAME University, na Índia, analisou mais de 20 anos de dados de satélite para desvendar o que é descrito como a emergência de grandes regiões continentais onde as perdas de água doce são monumentais, todas elas no hemisfério norte do planeta: grandes porções do Canadá e da Rússia, a América Central e o sudoeste da América do Norte, e uma “região tricontinental massiva” que se estende do norte de África à Europa, do Médio Oriente à Ásia Central, do norte da China ao sul asiático.

As consequências dessa decrescente disponibilidade de água doce ao longo de grandes áreas terrestres, fenómeno descrito como “continental drying”, ou “dessecação continental” numa tradução livre para português, são “impressionantes”, no pior dos sentidos. Segundo os investigadores, cerca de 75% da população mundial vive em 101 países que têm vindo a perder água doce ao longo das últimas duas décadas. As estimativas apontam que a população humana continuará a crescer durante os próximos 50 ou 60 anos, ao mesmo tempo que a disponibilidade de água doce segue no sentido contrário, e a um ritmo vertiginoso.

Os cientistas alertam para os riscos de tomarmos a água doce como algo garantido. Abrimos a torneira e lá está ela. Se não mudarmos a forma como nos relacionamos com esse precioso e indispensável recurso, podemos dar por nós, talvez demasiado tarde, numa situação de “bancarrota”, diz quem estuda as dinâmicas hidrológicas da Terra.

Além de tudo isso, a perda de água doce está também a contribuir para o aumento do nível do mar. Pode parecer paradoxal, mas os cientistas explicam a relação. Apontando que as águas subterrâneas deveriam ser reservatórios de água doce de último recurso, dizem que estão a ser exploradas de forma insustentável e não estão a ser revitalizadas. Essa água terá, no final de contas, de ir para algum lado (porque a água não desaparece, mas transforma-se) e a grande maioria acabará no mar, preveem os investigadores, sendo mais um fator de peso no aumento do nível das águas marinhas, tal como o degelo dos glaciares.

Para um exemplo mais familiar, pensemos na água que, depois de usada pelos humanos, é lançada no mar, idealmente depois de passar por tratamentos.

Depois há o processo inverso. À medida que o mar sobe, as águas salgadas infiltram-se nos aquíferos, reduzindo ainda mais a quantidade de água doce disponível.

Os autores deste artigo pedem, por isso, que os governos do mundo façam, com urgência, mais e melhor para proteger os recursos de água doce que ainda têm conseguido resistir (não se sabe ao certo até quando, no entanto) à sobre-exploração humana.

Um relatório publicado também em 2025 pelo Banco Mundial aponta para uma realidade semelhante, estimando que o planeta esteja a perder 324 biliões de litros de água doce todos os anos. Quantidade suficiente para suprir as necessidades anuais de cerca de 280 milhões de pessoas.

No documento, assinado por investigadores do artigo anterior cujos dados ajudaram a suportar a análise do Banco Mundial, calcula-se que o consumo de água a nível global aumentou 25% desde 2000, e um terço desse aumento aconteceu em regiões que estão já a registar grandes perdas.

Apesar disso, o consumo insustentável de água continua a ser a regra em muitos países, incluindo naqueles que já experienciam reduções significativas da sua água doce. De entre os países a secar, 37 aumentaram a área com culturas agrícolas que consomem muita água, incluindo em áreas áridas ou semiáridas.

“A dessecação continental não é inevitável”, garante Fan Zhang, primeira autora do relatório e coautora do artigo de julho da ‘Science Advances’.

“Ao gerir a procura, expandir a oferta e alocar água de forma mais justa e eficiente, os países podem estabilizar os sistemas hídricos e assegurar o seu futuro. Os dados mostram que as soluções existem. O que agora é preciso é coordenação, investimento e determinação.”

Entre as soluções que os especialistas indicam estão uma gestão mais eficaz e eficiente da água através de tecnologia, uma regulação mais forte e uma maior consciencialização do público para a importância de preservar um recurso cada vez mais escasso. Sugerem também a expansão de alternativas, como a reciclagem, a dessalinização e o armazenamento, bem como uma distribuição mais justa da água.

A água em Portugal

“Portugal não tem falta de água. O que falta é uma boa gestão da água.” Esta ideia, porventura por outras palavras, é ouvida frequentemente a especialistas e governantes. Lembremo-nos que, em março de 2025, por ocasião da apresentação da estratégia “Água que Une”, o Primeiro-ministro Luís Montenegro, em Coimbra, dissera que “em Portugal, não há um problema de falta de água”, mas sim “um problema de falta de capacidade de gestão da água”.

Embora banhado pelas águas do Atlântico, o país é fortemente influenciado pelo clima mediterrânico, caracterizado por uma grande variabilidade no que toca à chuva, chovendo muito nuns anos e noutros nem tanto. A isso junta–se o facto de cada ano ser tipicamente marcado por uma estação seca e quente e por uma estação mais fria e chuvosa. Essas particularidades fazem com que os países da região, Portugal incluído, estejam suscetíveis a fenómenos de seca, que tenderão a intensificar-se à medida que a crise climática progride.

Devido às alterações climáticas, a região do Mediterrâneo está a aquecer 20% mais rapidamente do que a média global e há estimativas que apontam que o consumo de água duplicará, ou até mesmo triplicará, até 2050.

Estima-se que entre 1971 e 2019 a precipitação em Portugal tenha diminuído cerca de 20%, e as previsões apontam para uma diminuição adicional entre 10% e 25% até ao final do século XXI. A par disso, espera-se uma redução de 6% nas disponibilidades hídricas nacionais anuais em 2040 e, em sentido contrário, um aumento médio de 26% dos consumos nesse mesmo ano.

Todos estes fatores e previsões tornam claro que é preciso olhar com outros olhos para a gestão da água.

Há seis anos, num relatório intitulado “Vulnerabilidade de Portugal à Seca e Escassez de Água”, a organização ambientalista WWF Portugal (então ainda ANP/WWF) dizia que, apesar de não haver uma “tendência clara” relativamente a alterações na precipitação anual no país, tudo indicava “uma redução das disponibilidades” de água. Ademais, avisava que “mais grave que a redução da água disponível tem sido o aumento significativo dos consumos em Portugal ao longo das últimas décadas, do qual resultam crescentes situações estruturais de escassez, em particular no Sul do País”.

Em Portugal, cada habitante consome, em média, 184 litros de água por dia, enquanto as Nações Unidas estimam que 110 litros por pessoa são suficientes para satisfazer necessidades básicas. É, por isso, um dos países da União Europeia com os maiores níveis de consumo de água. Há três anos, o então ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, dissera que “vamos ter que nos habituar a viver com menos água”.

Avançando para o presente, e para um outro Governo, a estratégia “Água que Une”, do executivo de Montenegro, quer que a água passe a ser vista como um recurso estratégico que é preciso preservar e usar de forma mais eficiente.

Aumentar a eficiência hídrica, promover o uso racional, reduzir as perdas, impulsionar a utilização de águas residuais tratadas, otimizar as infraestruturas existentes, reforçar a capacidade de armazenamento e tirar partido de outras origens de água, como a água do mar dessalinizada, são prioridades dessa estratégia.

Em 2020 foi publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian um estudo com o título “O uso da água em Portugal: olhar, compreender e actuar com os protagonistas-chave”. O documento, que resultou de uma investigação desenvolvida pelo C-Lab – The Consumer Intelligence Lab, elencou uma série de ideias que permitem não apenas refletir sobre a água em Portugal, mas também sobre o que temos de fazer para conservá-la, na perspetiva de um futuro cheio de incertezas.

Entre as ideias avançadas estão a preparação para cenários de escassez de água ao longo das próximas décadas e ajudar a agricultura a ser ainda mais eficiente no consumo, especialmente através da inovação tecnológica e do posicionamento do uso eficiente da água como um padrão nas práticas de rega.

E também o “cidadão comum”, todos nós, eu e o leitor, temos de fazer a nossa parte, não bastando dizer aos outros que têm de fazer mais e melhor sem que, pelo menos, reconheçamos onde podemos atuar e estejamos dispostos a mudar.

Em 2020, escreviam os autores dessa investigação, “a maioria dos portugueses é ainda pouco consciente e consequente no uso da água”. Por outras palavras, a maior parte de nós toma a água como garantida, nunca tendo sentido falta dela, sendo por isso visto como um problema “dos outros” ou de tempos passados.

“Os portugueses, de uma forma geral, não se revelam muito consequentes num esforço de redução consciente e monitorizada da água que utilizam”, lê-se no estudo. Isto é, os portugueses podem até revelar preocupações com a água, mas, no final de contas, não têm comportamentos correspondentes.

Os investigadores dizem ter identificado “dois desafios na esfera do cidadão comum” no que à água diz respeito. Um é despertar as pessoas para um consumo “consciente e responsável” de água nas vivências de todos os dias. O outro é fazer ver aos consumidores que as escolhas alimentares que fazem têm, também elas, um grande peso na sustentabilidade do uso desse recurso, uma vez que é preciso água para produzir a comida com a qual todos os dias nutrimos os nossos corpos.

“A valorização natural da água e a empatia para com a agricultura local são pontos de partida favoráveis à mudança, haja um ganho de consciência sobre a problemática da água”, escrevem os especialistas. E também chamam a Imprensa à responsabilidade de contar “novas histórias”.

As centenas de inquiridos, cujas respostas serviram de base a esse estudo, consideram, regra geral, que se fala pouco de água, pelo que os autores dizem que “importa assegurar o envolvimento dos Media”, para que a sustentabilidade “ganhe relevância editorial, de forma continuada” e para que a água “se assuma como tema”.

E, tal como noutras dimensões, não basta apontar o que está mal. Defendem os investigadores que é preciso “mostrar caminho, dar exemplos e introduzir referências”. Em suma, mostrar o que se faz bem e disseminar essas histórias, para inspirar e mobilizar, aproximando os consumidores de realidades concretas, eventualmente até familiares, com as quais se possam identificar e seguir.

Quantidade, sim. Mas também qualidade

Quando falamos da água, tendemos a focar-nos, e bem, na quantidade. No entanto, também a qualidade dessa água é de extrema importância, pois, por muita água que possa existir, se for de má qualidade, de pouco servirá, seja para nós, humanos, seja para os não-humanos e para os ecossistemas que têm na água uma fonte vital.

No final do passado mês de setembro, a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) divulgou o segundo volume do seu relatório anual que traça um quadro abrangente e, ao mesmo tempo, detalhado sobre a qualidade da água para consumo humano em Portugal.

O Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal 2025 (RASARP 2025) conclui que 2024 foi o décimo ano consecutivo em que as águas que correm das torneiras em Portugal continental alcançaram um nível de excelente qualidade.

No ano passado, o indicador “Água Segura” situou-se nos 98,86%, algo que a ERSAR diz confirmar que “o setor do abastecimento público de água em Portugal continental mantém a evolução positiva nos níveis da qualidade da água fornecida na torneira dos consumidores”. Em termos de comparação, esse valor rondava os 50% em 1993.

Segundo a análise, 81% dos concelhos do continente apresentaram, em 2024, uma percentagem de “Água Segura” nas torneiras igual ou superior a 99%. Somente dois tiveram um valor inferior a 95% de “Água Segura”, por causa de incumprimentos detetados em fontanários que são a única de fonte de água em localidades onde não chega a rede de distribuição (fontanários de origem única, na gíria técnica).

No esforço de amostragem e análise, foram feitas quase 400 mil análises à água da torneira dos consumidores por todo o país, do que resultaram 4.446 incumprimentos dos parâmetros de qualidade. Perto de 35% foram registados ao nível do pH, devido às características naturais da água captada, e cerca de 37% relacionados com a presença de microrganismos, que se atribui a falhas nos sistemas de desinfeção.

Em geral, o relatório indica que os resultados do controlo da qualidade da água em 2024 em Portugal continental assemelham-se aos que foram obtidos no ano anterior, algo que a ERSAR entende comprovar “a estabilidade e a eficácia dos mecanismos de controlo implementados no âmbito do ciclo da água para consumo humano, bem como a adaptação das entidades gestoras dos sistemas de abastecimento à evolução do enquadramento legal em vigor”.

O sistema de abastecimento de água é composto por entidades gestoras em alta, cuja missão principal, a montante da rede de distribuição, é captar, tratar e vender a água tratada a outras entidades gestoras, as gestoras em baixa, que têm o papel de distribuir a água que chega às nossas casas, por exemplo.

Em 2024, tal como em 2023, foram registadas 10 entidades gestoras em alta, mas houve uma redução no número de gestoras em baixa, que em 2024 eram 215, menos 10 do que no ano anterior. Explica a ERSAR que tal se deveu à “extinção das situações de prestação do serviço público de abastecimento de água por freguesias ou associações de utilizadores” e à criação da Águas Públicas em Altitude (APAltitude), que passou a agregar os municípios da Guarda, Manteigas, Sabugal e Celorico da Beira.

Quanto à origem da água para consumo humano, 29% veio de águas subterrâneas e 71% de águas superficiais, “tendência que se tem mantido constante ao longo dos últimos anos”, salienta a entidade reguladora.

O documento destaca também os fontanários de origem única. Em 2024, foram controlados 166, uma redução de seis face a 2023, devido aos que foram desativados em Castro Marim, Guarda, São Pedro do Sul, Sertã e Sever do Vouga, cujas populações passaram a ser servidas pela rede de água ao domicílio ou, aponta a ERSAR, “por outra alternativa de Água Segura”.

Apesar das melhorias verificadas na água para consumo humano em Portugal continental, a entidade reguladora salienta que “é fundamental que a eficácia da desinfeção não seja descurada, chamando-se a atenção para as percentagens de cumprimento do valor paramétrico das bactérias coliformes, que ainda não atingiu o valor de 99%”. Neste campo, alguns dos incumprimentos no que toca aos parâmetros microbiológicos podem estar relacionados com “a ausência de desinfetante residual livre ou com a sua presença em concentrações insuficientes para garantir a existência de uma barreira sanitária”.

Além disso, há também melhorias a fazer nos parâmetros do pH, do alumínio, do ferro e do manganês, que, “tal como em anos anteriores, são responsáveis pela maioria dos incumprimentos” em 2024.

Por fim, em 2024 não houve, tal como em 2023, relatos de surtos epidemiológicos relacionados com a água para consumo humano proveniente de sistemas de abastecimento público. Ainda assim, a ERSAR diz que é preciso manter a vigilância e aponta como “fundamental” que “as entidades gestoras promovam a resolução atempada dos problemas que possam ocorrer, numa articulação estreita e fundamental com as autoridades de saúde”.

Planeta azul mas pouco doce

Nunca será de mais recordar que a Terra é vulgarmente conhecida como “o planeta azul” pela água que cobre algo como 70% da sua superfície. No entanto, 96,5% dessa água são mares e oceanos, e apenas 2,5% é água doce.

Quase 70% dessa água doce, passível de servir para consumo, nosso e de outros seres vivos, está, como se costuma dizer, “aprisionada” em glaciares e outras formas geladas. Perto de 30% corre pelas entranhas da Terra e 1,2% está acima do solo, em lagos (20,9%), em zonas húmidas (2,6%), como pauis e pântanos, e em rios (0,49%).

Os números apenas mostram uma porção da realidade, é certo, mas neste caso ajudam a pôr em perspetiva o quão arriscado é pensarmos que a água doce correrá sempre que abrirmos a torneira. A água que chega às nossas casas não é produzida em fábricas (embora estações de tratamento de águas residuais possam ser descritas como “fábricas de água”) nem em laboratórios. Cai, literalmente, do céu e é captada em rios, em albufeiras e no subsolo.

Por isso, num planeta cada vez mais quente, com o ciclo de água crescentemente perturbado, com água a mais numas regiões e com água a menos noutras, usá-lade forma mais eficiente e sustentável, e valorizá-la, não apenas economicamente, mas também socialmente, é fundamental para preservar o que resta da pouca água doce que existe no planeta.

A consciência de que a água doce é um recurso limitado tem vindo a ganhar expressão e também a converter-se em ações concretas pelo mundo fora. O cenário que nos é pintado pela Ciência é, de facto, negro, mas há soluções e, pelo menos no papel, há vontade para isso.

No início de 2024, a Assembleia Ambiental das Nações Unidas, em Nairobi, no Quénia, adotou uma resolução na qual apelava aos governos do mundo para melhor gerirem os recursos hídricos, dentro de fronteiras e em cooperação transfronteiriça, para impulsionarem esforços de restauro de ecossistemas aquáticos e para investirem na sustentabilidade, na resiliência das infraestruturas e em soluções de base natural.

Mais recentemente, no dia 5 de novembro, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, discursou num encontro que aconteceu no âmbito da Convenção sobre a Proteção e a Utilização dos Cursos de Água Transfronteiriços e dos Lagos Internacionais, mais conhecida por “Convenção da Água”.

Na sua intervenção lembrou que, apesar dos progressos globais, dois mil milhões de pessoas continuam sem ter acesso a água segura para consumo. E a intensificação da crise climática, devido à continuação da emissão de gases com efeito de estufa, limitará ainda mais esse acesso já difícil a água de qualidade para beber, degradando, ao mesmo tempo, os ecossistemas que não só dela dependem, mas que também ajudam a armazenar, a fazer fluir e a purificar a água que corre pelo solo.

De acordo com as Nações Unidas, limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius poderia reduzir para cerca de metade o número de pessoas, em todo o mundo, que se prevê que venham a sofrer com a escassez de água caso a crise climática continue a prosseguir sem controlo.

Além disso, a qualidade da água doce disponível para consumo poderá igualmente ser afetada pelas alterações climáticas, pois águas mais quentes e cheias e secas mais frequentes poderão agravar algumas formas de poluição, por sedimentos, pesticidas ou organismos patogénicos.

Contas feitas, com as alterações climáticas a seguirem de “vento em popa”, com as projeções a apontarem para o crescimento da população humana mundial pelo menos durante as próximas décadas (até 2080, após o que deverá estabilizar) e com a esperada redução da disponibilidade de água doce, o que é que se pode fazer para conservar um recurso a desaparecer?

O que se pode fazer?

Uma das prioridades para proteger a água doce é precisamente proteger as suas fontes e reservatórios naturais, ou seja, os ecossistemas de água doce, que “suportam, direta ou indiretamente, a maioria da vida na Terra e fornecem bens e serviços que são essenciais para as economias e para o sustento de milhares de milhões de pessoas”.

Assim o disse, num artigo publicado em 2023 na revista ‘Sustainability’, um grupo de cientistas, que alertava que esses bens e serviços, que incluem o fornecimento de água doce, bem como a biodiversidade que desses ecossistemas depende, “estão em risco”. Isso mesmo o atesta a edição de 2025 do relatório de riscos globais publicado pelo Fórum Económico Mundial, no qual a escassez de recursos naturais, incluindo a água doce, é um dos principais riscos globais para a próxima década. O colapso dos ecossistemas, entre eles os de água doce, faz também parte dessa lista.

Para os autores desse artigo, se não houver alterações nas políticas de proteção da água doce, na forma como são concebidas e implementadas, “o futuro continuará sombrio”. A “dessecação continental”, com a redução da água doce, tem uma miríade de impactos, entre eles reduções da produtividade agrícola, desaceleração do crescimento económico, efeitos negativos na saúde e edução e pode resultar em deslocações humanas forçadas e até em conflitos.

Ademais, o fenómeno intensifica a frequência e intensidade de fogos de grandes dimensões e, dessa forma e de outras, representa uma séria ameaça à biodiversidade.

Mas listar problemas não chega. Há que saber o que é preciso fazer para tentar assegurar uma real sustentabilidade do uso humano da água doce e a sua máxima continuidade no tempo.

No relatório de 2025 do Banco Mundial, a investigadora Fan Zhang e a sua equipa apontam que a mitigação e adaptação aos desafios colocados pela “dessecação continental” devem passar pela priorização de uma gestão reforçada da procura de água, através, por exemplo, de tecnologias que ajudem a aumentar a eficiência dos consumos.

Os autores dão o exemplo da aplicação de irrigação inteligente e de sistemas de monitorização de uso de água na agricultura, considerado o setor que mais água doce consome a nível global. À medida que a população humana aumenta, cresce também a necessidade de produzir mais alimentos, e isso exigirá mais água doce, pelo que a sustentabilidade é imperativa.

Ainda assim, e apesar de a agricultura ser sempre apontada como o principal consumidor de água, facto é que há também ineficiências significativas no que toca ao fornecimento e distribuição de água, com perdas ao longo dos circuitos. Do mesmo modo, é preciso atuar nesse campo para promover a eficiência.

Outro pilar de atuação salientado pelos especialistas está relacionado com o aumento da oferta através de fontes alternativas, como a reciclagem da água, a dessalinização e o restauro e manutenção de reservatórios naturais (como ecossistemas de água doce) e artificiais (como os criados por construções para deter o curso dos rios). Além disso, apontam também a recolha e uso da água das chuvas e a recarga dos aquíferos.

Por fim, defendem melhorias na alocação da água “para assegurar que recursos hídricos escassos são distribuídos de forma justa e eficiente”, escrevem no relatório.

“A alocação eficiente da água – concebida para determinar quem recebe certa quantidade de água, quando e para que fins – é a pedra angular da gestão sustentável da água”, argumentam os autores, lembrando que “a alocação de água torna-se mais fundamental do que nunca no contexto de crescente competição entre agricultura, indústria, necessidades domésticas e ecossistemas num mundo a secar”.

Cada um destes três pilares depende dos outros dois e reforça-os, de maneira que “a gestão da procura é frequentemente um pré-requisito para intervenções bem-sucedidas no lado da oferta e para reformas na alocação de água”. Por isso, melhorar a oferta sem que haja melhorias correspondentes na gestão da procura “é, em última análise, insustentável e arrisca agravar o atual stress hídrico”, avisam os relatores.

Penalizar ou incentivar? Eis a questão!

Sabemos onde estamos mal, ou onde podíamos estar melhor, e são mais ou menos conhecidos os possíveis cenários futuros que temos pela frente. Mas é preciso saber como concretizar a mudança. Deve premiar-se quem faz bem ou punir quem faz mal?

Um outro estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentado no verão passado, reflete sobre como os portugueses olham para os desafios ambientais que o país tem pela frente. Com o título “Clima de Mudança: perceções sobre os desafios ambientais em Portugal”, revela que a maior parte dos mais de 1.500 inquiridos (77%) apoia totalmente ou tende a apoiar incentivos para que se consuma menos água. Por outro lado, 61% acreditam que se deve aumentar significativamente o custo para quem consome demasiada água.

Costuma dizer-se que se apanham mais moscas com mel do que com vinagre. Essa parece ter sido a linha seguida pela start-up portuguesa Savearth, que, aliando Inteligência Artificial a sensores acústicos, mede em tempo real o consumo de água nos duches dos hotéis.

Em entrevista à Green Savers, no passado mês de outubro, João Machado, fundador, explicou que a empresa foi criada depois de ter percebido que no setor hoteleiro, “além do impacto ambiental, o consumo excessivo de água nos banhos representa uma perda superior a 7 mil milhões de dólares por ano para a indústria” a nível global.

Com o intento de atenuar esses excessos, a Savearth adotou um conceito a que chamou de “save to earn”, ou “poupar para ganhar”. E é exatamente disso que se trata, de premiar com pontos ou benefícios os hóspedes que tomarem duches mais “eco”, o que está relacionado com a quantidade de água usada, e não necessariamente com a duração do banho. Isto, porque, por exemplo, um duche de cinco minutos com o caudal máximo envolve um consumo muito maior de água do que um de 10 com um caudal muito mais reduzido.

“O ‘save to earn’ nasceu da vontade de envolver o hóspede nesta missão, tornando-o parte ativa da solução, e não apenas um ‘culpado’ a educar”, explicou João Machado. “Acreditamos que o comportamento sustentável se incentiva, não se impõe”, sentenciou.

O responsável contou-nos que os resultados dos projetos-pilotos com a implementação da sua tecnologia em duches de hotéis em Lisboa e no Porto foram “impressionantes”. Conseguiram-se poupanças médias de 46%, tanto na água usada nos duches como na energia.

“Do lado dos hóspedes, o feedback foi extremamente positivo, muitos disseram que se sentiram ‘parte da solução’ e apreciaram o facto de a tecnologia os recompensar sem interferir com o conforto”, explicou.

Talvez o caminho não seja o de castigar, pelo menos quando o “mal” não é feito intencionalmente, mas o de mostrar que é possível fazer melhor e que isso, no final do dia, resulta em ganhos em termos de poupança de um recurso cada vez mais escasso e também em termos de poupanças financeiras, pois a eficiência traduz-se muitas vezes em menos gastos desnecessários e, assim, na disponibilidade de mais dinheiro para canalizar para outros fins.

Numa altura em que se reconhece que a água doce está a escassear e que é preciso fazer alguma coisa para assegurar que as massas terrestres não se transformam em desertos de poeira, temos de agir, e rapidamente. Temos de dar valor à água doce enquanto a temos, porque, depois, poderá ser demasiado tarde.

*Artigo publicado originalmente na revista de março de 2026.

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