Águas mais quentes atraem milhares de baleias para a costa da Gronelândia

Alterações na temperatura do oceano e na extensão do gelo marinho estão a levar milhares de baleias a concentrar-se no leste da Gronelândia, onde encontram uma nova abundância de alimento.

Redação

O aquecimento das águas e a redução do gelo marinho estão a transformar o ecossistema marinho do leste da Gronelândia, atraindo concentrações excecionalmente elevadas de três espécies de baleias de barbas. Um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science estima que cerca de 16 mil baleias-comuns, baleias-de-bossa e baleias-anãs possam passar o verão nesta região, onde se concentram para se alimentar de capelim.

“Mostramos aqui que o aumento das temperaturas do oceano e a diminuição da cobertura de gelo marinho facilitaram a presença generalizada de baleias de barbas ao longo da costa leste da Gronelândia, até aos 70° de latitude norte”, afirma Mads Peter Heide-Jørgensen, do Greenland Institute of Natural Resources. Segundo o investigador, esta alteração deu origem a concentrações regulares de baleias-comuns, baleias-de-bossa e baleias-anãs a alimentar-se em conjunto, espécies que historicamente eram observadas apenas raramente nas águas costeiras do leste da Gronelândia.

O Ártico e o Atlântico Norte estão entre as regiões que aquecem mais rapidamente no planeta. A temperatura da superfície do mar a leste da Gronelândia aumentou cerca de 2 °C desde a década de 1990 e, a partir de meados dos anos 2000, o limite do gelo marinho no verão recuou significativamente para norte, reduzindo a extensão do gelo ao longo da costa oriental da ilha.

Uma mudança observada ao longo de décadas

Para acompanhar esta transformação, os investigadores realizaram os primeiros levantamentos sistemáticos aéreos de baleias de barbas até 50 quilómetros da costa leste da Gronelândia, em agosto de 2015 e 2024. A estes dados juntaram observações aéreas realizadas em 2022, relatos de caçadores inuítes recolhidos entre 2023 e 2025, registos de navios que participaram em campanhas de observação no Atlântico Norte desde 1987 e dados de 15 baleias equipadas com dispositivos de localização por satélite entre 2019 e 2025.

Os investigadores utilizaram ainda um modelo matemático para analisar os dados e relacionar a presença das baleias com fatores como a temperatura da superfície do mar, a salinidade e a concentração de gelo marinho.

Os resultados mostram uma alteração clara entre 1987 e 2024 na presença das três espécies ao longo da costa leste da Gronelândia, a norte dos 60° de latitude norte. As observações de baleias-de-bossa realizadas a partir de navios, por exemplo, só começaram a ser registadas em 2006. Em 2007 foram observados sete animais, em 2015 já eram 26 e, em 2024, o número ultrapassava os 150.

As observações de baleias-anãs também eram reduzidas até meados da década de 1990, mas passaram a registar entre dez e 20 indivíduos por ano depois de 2001. A presença de baleias-comuns aumentou igualmente de forma acentuada desde o início da série de observações.

Em agosto de 2025, uma tripulação de um navio relatou concentrações excecionalmente grandes, com até 50 baleias observadas simultaneamente, ao longo da costa leste, perto dos 69° de latitude norte, já a norte do Círculo Polar Ártico. Os levantamentos aéreos realizados em 2015 e 2024 mostraram, por sua vez, uma distribuição quase contínua das três espécies entre os 60° e os 70° de latitude norte.

O capelim está a mudar de território

Os investigadores estimam que, no verão de 2024, tenham passado pelo Mar da Gronelândia pelo menos 4.000 baleias-de-bossa, 6.000 baleias-comuns e 6.000 baleias-anãs.

“Há poucas dúvidas de que as três espécies de baleias de barbas que passam o verão nas águas costeiras do leste da Gronelândia o fazem sobretudo para se alimentar”, concluem os autores.

A principal razão parece estar num peixe de pequenas dimensões, o capelim, uma espécie adaptada a águas frias e uma das principais presas destas baleias noutras regiões. Estudos recentes indicam que, desde meados dos anos 2000, o capelim deslocou as suas zonas de alimentação das águas relativamente mais quentes a norte da Islândia para o Mar da Gronelândia.

As baleias terão acompanhado esta deslocação, seguindo a nova disponibilidade de alimento para águas que estão a aquecer rapidamente. Até ao momento, não existem pescarias comerciais de capelim nesta região, pelo que a competição direta com a atividade humana não parece constituir uma ameaça imediata.

“Na Gronelândia Oriental está a ocorrer uma grande mudança no regime ecológico. Espécies associadas ao gelo, como os narvais, estão cada vez mais a partilhar o seu habitat com baleias de barbas de águas temperadas, ou a ser deslocadas por estas, uma vez que geralmente evitam águas cobertas de gelo”, afirma Heide-Jørgensen.

Para o investigador, esta alteração na composição das espécies demonstra como as mudanças provocadas pelo clima estão a reorganizar o ecossistema marinho do leste da Gronelândia, podendo ter consequências duradouras.

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