Algas fora de controlo: o fenómeno silencioso que está a transformar os rios norte-americanos



Grandes quantidades de algas filamentosas, conhecidas como FAB (filamentous algal blooms), estão a surgir em cursos de água do Oeste dos Estados Unidos. As conclusões mais recentes sobre estes organismos de aspeto vegetal foram publicadas na revista Ecology.

As algas são uma presença comum em vias fluviais de todo o mundo, incluindo na América do Norte ocidental. As algas verdes que cobrem as pedras dos rios são um cenário familiar. As algas verde-azuladas tóxicas — as cianobactérias — constituem um fenómeno visualmente marcante, mas preocupante. A este quadro juntam-se, cada vez mais, as algas filamentosas, com longos e volumosos filamentos verdes, levantando novas questões para cientistas, utilizadores recreativos e gestores do território.

“Nos últimos anos, têm sido observadas proliferações muito extensas de algas filamentosas em grandes rios do Oeste dos Estados Unidos, incluindo os rios Provo, Jordan e Bear, no Utah”, explica Alice Carter, ecóloga fluvial. “Produzem enormes quantidades de biomassa e desenvolvem filamentos que podem atingir os 12 metros de comprimento. Embora não sejam tóxicas, constituem um incómodo significativo, interferindo com usos recreativos tradicionais dos rios, como a canoagem e a pesca. Além disso, estas grandes proliferações representam praticamente um beco sem saída na cadeia alimentar, não sustentando pescarias nem comunidades de macroinvertebrados”, acrescenta.

Grandes quantidades de algas filamentosas, conhecidas como FAB, estão a surgir em cursos de água do Oeste dos Estados Unidos. Os investigadores apresentam novos dados sobre estes organismos de aspeto vegetal na edição de 9 de dezembro de 2025 da revista científica Ecology.
@Laurel Genzoli

Carter e investigadores da Universidade do Montana e da Woods Hole Oceanographic Institution, em Massachusetts, têm vindo a estudar estes organismos de grandes dimensões no troço superior do rio Clark Fork, no oeste do Montana. Os resultados do trabalho, financiado pela National Science Foundation, foram agora divulgados na revista Ecology.

Professora assistente de prática profissional no Departamento de Matemática e e especialista em estatística da USU e no Centro de Ecologia da mesma universidade, Carter refere que o estudo revelou aspetos inesperados destas proliferações de algas filamentosas.

“Embora as algas filamentosas estejam a provocar uma alteração significativa na estrutura do ecossistema, estamos a observar mudanças mínimas no metabolismo e no funcionamento global do rio”, afirma. “Em contrapartida, algas verdes aderentes às rochas mais pequenas e com ciclos rápidos parecem estar, discretamente, a assegurar a maior parte do trabalho necessário para manter um ecossistema saudável, sustentando a cadeia alimentar e impulsionando todo o sistema”, adianta.

De acordo com os investigadores, as algas filamentosas produzem aproximadamente a mesma quantidade de carbono que as algas algas verdes que cobrem as pedras dos rios, apesar de estas ocuparem uma área muito menor.

“Isto sugere que os rios podem ser uma exceção às teorias clássicas da ecologia dos ecossistemas”, observa Carter. “Nos ecossistemas terrestres, a estrutura e a função estão intimamente ligadas: uma floresta densa, com muitas árvores e elevada biomassa, é também uma floresta produtiva. Pelo contrário, uma vegetação escassa traduz-se num ambiente menos produtivo.”

Nos rios, contudo, essa ligação entre estrutura e função parece estar dissociada.

“Os rios podem não estar a seguir as regras habituais, o que levanta implicações interessantes para a gestão ambiental”, acrescenta. “Se não estamos a observar uma alteração significativa da função apesar das grandes mudanças estruturais causadas pelas algas filamentosas , então os fluxos de entrada no sistema deverão ser semelhantes, quer estes grandes organismos estejam a obstruir os cursos de água quer não. Isto sugere que algo para além do simples excesso de nutrientes poderá ter desencadeado o estado atual de proliferação algal.”

Identificar esse ponto de viragem poderá ajudar os gestores a restaurar a saúde dos rios sem recorrer a campanhas massivas de redução de nutrientes.

“Podemos vir a descobrir uma solução de gestão mais simples do que o esperado”, conclui Carter. “Talvez seja uma perspetiva otimista, mas seria entusiasmante comprová-la.”






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