Alimentar leões-africanos em cativeiro com carcaças inteiras e em ciclos alternados de alimentação e jejum promove comportamentos mais semelhantes aos registados na natureza, conclui um estudo da Adelaide University e do Monarto Safari Park, na Austrália.
Publicado na revista científica Applied Animal Behaviour Science, o estudo avaliou o comportamento de três leões-africanos adultos após a introdução de uma rotina em que recebiam carcaças inteiras de animais de nove em nove dias, complementando um regime alimentar baseado em períodos de abundância e jejum.
Durante três meses, os investigadores recorreram a videovigilância contínua para monitorizar os animais 24 horas por dia. Os resultados mostraram que os leões passaram significativamente mais tempo a alimentar-se, descansaram durante mais tempo após as refeições e apresentaram padrões de atividade mais próximos dos observados em populações selvagens.
“Os leões selvagens não comem à mesma hora todos os dias. Passam naturalmente por períodos de abundância e de jejum, dependendo do sucesso da caça”, afirma Lesia Hryhorenko, autora principal do estudo e investigadora da School of Animal and Veterinary Sciences da Adelaide University.
“Queríamos compreender como os leões-africanos em cuidados humanos respondem quando as rotinas alimentares se aproximam mais desses padrões naturais”, acrescenta.
Alimentação mais próxima da realidade selvagem
Na fase experimental, os tratadores forneceram aos três leões cerca de 200 quilogramas de carcaças, que permaneceram disponíveis durante um período máximo de três dias, seguido de uma fase de descanso e digestão.
O comportamento dos animais foi registado por oito câmaras de infravermelhos, permitindo recolher um dos mais detalhados conjuntos de dados sobre leões-africanos em cativeiro sujeitos a este tipo de alimentação.
Nos dias em que recebiam carcaças, os leões passaram quase três vezes mais tempo a alimentar-se do que em condições habituais. As refeições também foram mais longas e frequentes, permitindo aos animais rasgar, puxar e manipular o alimento durante períodos prolongados.
“Disponibilizar carcaças inteiras altera muito mais do que o conteúdo nutricional da dieta”, explica Lesia Hryhorenko.
“Permite que os leões expressem comportamentos como rasgar, puxar e manipular o alimento durante longos períodos, componentes importantes da sua ecologia alimentar natural”, acrescenta.
Após as refeições, os investigadores observaram um aumento significativo dos períodos de repouso. À medida que o jejum avançava, a atividade dos animais voltava gradualmente a aumentar, reproduzindo um ciclo semelhante ao observado em leões selvagens.
Sem aumento da agressividade
A equipa analisou também o comportamento repetitivo de andar de um lado para o outro, frequentemente associado à antecipação da alimentação em grandes carnívoros mantidos em cativeiro.
Embora este comportamento tenha aumentado ligeiramente ao longo do estudo, os investigadores verificaram que não se intensificava durante os períodos de jejum. Os momentos de maior frequência coincidiam sobretudo com a chegada dos tratadores e com as mudanças de recinto, sugerindo que estavam mais relacionados com rotinas previsíveis do que com a fome.
O estudo não encontrou qualquer aumento da agressividade ou da instabilidade social entre os leões durante os períodos de alimentação com carcaças.
A coautora Alexandra Whittaker sublinhou que a investigação demonstra a importância de monitorizar os animais durante todo o ciclo alimentar.
“Muitos estudos em jardins zoológicos concentram-se apenas no que acontece imediatamente após a disponibilização do alimento”, afirma.
“Os nossos resultados mostram que os regimes alimentares podem influenciar o comportamento durante vários dias, tornando essencial analisar os padrões comportamentais ao longo de todo o ciclo de alimentação e não apenas durante um único momento de alimentação”, conclui.
Os investigadores defendem que futuros estudos deverão combinar observações comportamentais com indicadores fisiológicos para avaliar de forma mais completa o impacto de diferentes regimes alimentares no bem-estar dos animais.









