Alterações climáticas estão a causar temperaturas marinhas “sem precedentes” na Europa

Num relatório divulgado esta quarta-feira pela organização World Weather Attribution, as alterações climáticas estão a provocar temperaturas marinhas “sem precedentes” na Europa, com as águas marinhas da região a aquecerem mais rapidamente do que o próprio clima. E os investigadores avisam que esse aquecimento extremo está a ter “consequências desastrosas” na vida marinha na região.

Redação

Este verão está a ser um dos mais preocupantes no que toca às temperaturas superficiais dos mares que banham a costa europeia, com o mês de julho a registar as mais altas desde que há registo.

Num relatório divulgado esta quarta-feira pela organização World Weather Attribution, as alterações climáticas estão a provocar temperaturas marinhas “sem precedentes” na Europa, com as águas marinhas da região a aquecerem mais rapidamente do que o próprio clima. E os investigadores avisam que esse aquecimento extremo está a ter “consequências desastrosas” na vida marinha na região.

Várias espécies estão a deslocar-se para norte, em direção a águas mais frescas, com impactos negativos na pesca e aquacultura. No Reino Unido foi registado um aumento exponencial da abundância de polvos, que causa preocupação no que toca à estabilidade e funcionamento dos ecossistemas marinhos. Há ainda relatos de alterações nas teias tróficas, com, por exemplo, golfinhos a alimentar-se de medusas por causa da redução da abundância das suas presas habituais, como a cavala.

Além disso, os autores deste estudo apontam também que as altas temperaturas marinhas estão a causar eventos de mortalidade em massa de espécies vitais para a construção e manutenção dos habitats marinhos, como corais, esponjas e macroalgas. “A perda de tais espécies fundamentais tem impacto na estrutura e funcionamento de todo o ecossistema”, escrevem.

Essa mortalidade massiva terá igualmente impactos noutros níveis ao longo das teias alimentares, podendo afetar invertebrados, peixes, aves e mamíferos marinhos.

Com os mares a tornarem-se mais quentes, a biodiversidade sofre profundas alterações, não só com a deslocação de espécies para águas mais frias, mas também com a reconfiguração da composição das próprias comunidades de organismos marinhos e com a substituição por espécies mais adaptadas a temperaturas mais elevadas.

Mas mesmo aquelas espécies mais bem-adaptadas têm limites, que podem vir a ser ultrapassados à medida que as onda de calor marinhas se tornam mais frequentes, duradouras e intensas. Por isso, os investigadores dizem que “uma rápida transição para lá dos combustíveis fósseis é essencial para salvar ecossistemas cruciais, as pescas, as produção alimentar e o turismo nas costas europeias”.

Aos impactos ecológicos juntam-se os climáticos, uma vez que os cientistas que assinam este trabalho explicam que o aumento da temperatura marinha superficial pode influenciar o clima regional e impulsionar fenómenos extremos como chuvas torrenciais. Na Europa, a temperaturas elevadas do Mediterrâneo foram associadas a eventos de precipitação intensa que causaram as cheias de Valência em 2024.

A equipa diz que medidas de adaptação ao aumento das temperaturas marinhas, e aos seus efeitos, como reduzir a pressão sobre os ecossistemas marinhos, proteger os habitats, melhorar sistemas de alerta precoce e mudanças na gestão da pesca e aquacultura, podem aumentar a resiliência e reduzir a vulnerabilidade. Contudo, deixam um aviso: dado o atual estado de coisas, não serão capazes de “compensar totalmente os impactos ecológicos do contínuo aquecimento marinho”.

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