As alterações climáticas poderão provocar a perda de cerca de um terço das espécies de plantas utilizadas pelos povos indígenas da Amazónia, comprometendo recursos essenciais como medicamentos naturais, alimentos e materiais tradicionais. O alerta surge num estudo publicado na revista científica Nature, que aponta também para o risco de desaparecimento de uma parte significativa do conhecimento ancestral associado à floresta tropical.
A investigação foi conduzida por cientistas da Suíça e dos Estados Unidos, que reuniram mais de 90 mil registos sobre a utilização de plantas amazónicas, produzidos entre 1504 e 2023. A análise revelou que as comunidades da região utilizam quase 5.800 espécies vegetais diferentes, um número cerca de duas vezes superior às estimativas anteriores.
Além da riqueza biológica, os investigadores destacam a enorme diversidade cultural da Amazónia, onde vivem mais de 400 grupos indígenas. Dos mais de 76 mil registos analisados relativos a plantas nativas, 57% estavam associados a 156 línguas indígenas diferentes. Destas, mais de metade encontra-se atualmente ameaçada.
Os investigadores procuraram perceber de que forma as alterações climáticas poderão afetar a distribuição destas espécies nas próximas décadas. Para isso, desenvolveram modelos climáticos para o período entre 2060 e 2080, considerando diferentes cenários de emissões de gases com efeito de estufa.
Os resultados apontam para extinções locais médias entre 28% e 34% das espécies utilizadas pelas comunidades amazónicas, dependendo da evolução do aquecimento global. As perdas deverão ser particularmente elevadas entre as plantas com maior importância cultural e prática para as populações locais.
Consequentemente, serviços fornecidos por estas espécies, incluindo aplicações medicinais, alimentação, construção e artesanato, poderão sofrer reduções entre 18% e 23%.
O estudo conclui ainda que as regiões onde as línguas indígenas estão mais ameaçadas tendem a enfrentar maiores perdas de biodiversidade e de serviços ecossistémicos. Caso muitas destas línguas desapareçam, os investigadores estimam que cerca de 26% do conhecimento documentado sobre a utilização de plantas amazónicas poderá perder-se.
Segundo os autores, a combinação entre a diminuição da biodiversidade e o desaparecimento de línguas indígenas representa uma ameaça sem precedentes ao património biocultural da Amazónia, uma das regiões mais importantes do planeta em termos ecológicos e culturais.
Os cientistas defendem que a conservação da floresta deve passar não apenas pela proteção das espécies e dos ecossistemas, mas também pela valorização e preservação dos conhecimentos tradicionais das comunidades indígenas. Para isso, recomendam que as políticas ambientais integrem de forma mais eficaz a proteção do património biológico e cultural, reconhecendo a estreita ligação entre ambos.
Para os autores, os resultados devem servir de ponto de partida para reforçar estratégias de conservação e restauro do património biocultural amazónico, numa altura em que as alterações climáticas continuam a intensificar as pressões sobre a maior floresta tropical do mundo.









