Um novo estudo revela que, até 2040, mesmo as zonas marinhas mais protegidas da Austrália poderão sofrer impactos oceânicos extremos, colocando em risco milhares de espécies de plantas e animais.
A investigação, conduzida por uma equipa da Universidade do Sunshine Coast (UniSC), conclui que as condições oceânicas atualmente consideradas “extremas” tornar-se-ão “o novo normal” em apenas 15 anos devido às alterações climáticas.
“Estamos perante um cenário sem precedentes: águas mais quentes, maior acidez, níveis reduzidos de oxigénio e uma frequência crescente de ondas de calor marinhas”, alerta a investigadora principal Alice Pidd.
“O mais preocupante é que este cenário também se aplicará a refúgios marinhos essenciais que, até agora, se mantinham relativamente estáveis”, acrescenta.
O estudo, publicado na revista Earth’s Future, avaliou a exposição das Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) aos efeitos das alterações climáticas ao longo deste século. Estas áreas — que representam cerca de metade dos sete milhões de quilómetros quadrados do território marinho australiano — foram criadas para preservar a biodiversidade em ecossistemas vitais como recifes de coral, florestas de algas, pradarias marinhas e mangais.
O coautor Professor David Schoeman, também da UniSC, explicou que a modelação teve por base cenários globais de aquecimento, incluindo uma projeção conservadora de aumento médio de 1,8 °C até ao final do século — valor que, se ultrapassado, agravará severamente os impactos.
“É a primeira avaliação abrangente do grau de exposição das águas marinhas australianas às alterações climáticas, com destaque para as AMPs — e, infelizmente, os resultados não surpreendem”, afirma o professor.
“As áreas protegidas mostram-se tão vulneráveis como as zonas não protegidas quando sujeitas a aquecimento rápido, perda de oxigénio, acidificação e ondas de calor”, adianta.
Segundo Alice Pidd, as AMPs localizadas no noroeste e no leste da Austrália são as mais vulneráveis.
“As áreas protegidas são fundamentais para mitigar os impactos das atividades humanas — como a pesca, o transporte marítimo, a mineração e o turismo —, mas não foram concebidas a pensar nas alterações climáticas. A sua localização, por si só, não as protege do aquecimento global”, explica.
A Professora Associada Kylie Scales, coautora e supervisora de doutoramento, sublinha que estas áreas altamente protegidas funcionam também como refúgios para baleias, tubarões, tartarugas e espécies comerciais como o espadarte e o atum, desempenhando um papel essencial na conservação da biodiversidade e na sustentabilidade das pescas.
A equipa defende uma ação imediata e ambiciosa para reduzir as emissões de carbono, de forma a atrasar ou mitigar os efeitos projetados.
“O compromisso do Governo australiano de cortar as emissões entre 62% e 70% até 2035 é um bom começo, mas insuficiente para inverter as tendências que identificámos”, afirma Pidd.
A investigadora considera que uma redução rápida das emissões poderá permitir a recuperação parcial de alguns refúgios marinhos após 2060, embora seja improvável que o processo seja travado por completo.
“Já ultrapassámos vários pontos de não retorno climático. A biodiversidade terá de se adaptar”, disse. “Recomendamos a criação e expansão de áreas marinhas protegidas inteligentes, resistentes às mudanças do oceano, para salvaguardar as espécies que já estão em movimento devido às transformações atuais”, sublinha.
O Professor David Schoeman acrescenta que o passado já não serve de referência para o futuro dos oceanos:
“É encorajador ver um crescente impulso nacional e internacional para a proteção marinha, incluindo a ratificação do Tratado das Nações Unidas sobre o Alto Mar, que entrará em vigor a 26 de janeiro de 2026″, afirma.
“Este tratado permitirá criar áreas marinhas protegidas nas duas terceiras partes dos oceanos que estão fora da jurisdição nacional. É essencial manter este impulso global”, conclui.









