Numa caverna na Antártida, com temperaturas de 50 graus negativos todo o ano, serão preservados núcleos de gelo das regiões montanhosas do mundo para que cientistas ao longos dos próximos séculos possam estudar a história da atmosfera da Terra.
A iniciativa foi lançada em 2015 pela Fundação Ice Memory e fica agora marcada pelo primeiro conjunto de núcleos de gelo que inauguram o santuário. As duas primeiras amostras provêm de glaciares alpinos, de Mont Blanc, em França, e Grand Combin, na Suíça, que estão a desaparecer, e chegaram à Antártida em meados de janeiro depois de mais de cinquenta dias de viagem de barco desde a cidade costeira de Trieste, em Itália.
“Confiantes de que avanços na ciência e na tecnologia revelarão novas descobertas científicas – mesmo que os glaciares tenham desaparecido –, estes núcleos de gelo representam um legado inestimável para as gerações futuras”, diz a fundação em nota.
“Enquanto cápsulas do tempo, estes núcleos de gelo contêm o passado da atmosfera. Estão agora protegidos para as décadas e séculos vindouros, protegidos contra qualquer risco de perda”, assegura.

A caverna que serve de santuário tem 35 metros de comprimento e cinco de altura e de largura, e foi escavada diretamente nas camadas de neve compacta a cerca de cinco metros da superfície. Sem quaisquer materiais de construção, fundações ou sistemas de refrigeração, “a sua estabilidade é assegurada pelas temperaturas extremas e naturalmente constantes da Antártida, que se mantêm perto dos 52 graus Celsius negativos todo o ano”, explica a Fundação Ice Memory.
“O acondicionamento dos núcleos de gelo garantirá que as amostras estão protegidas de flutuações ambientais e de contaminação”, sublinha a mesma entidade.
É esperado que dezenas de outros núcleos oriundos de todo o mundo – dos Andes, do maciço de Pamir, do Cáucaso, de Svalbard e de outros locais – se juntem a estes dois primeiros ao longo dos próximos anos.
“Para que estes núcleos possam servir a ciência daqui a um século, têm de ser geridos como um bem comum global”, diz Thomas Stocker, da Universidade de Berna e presidente da Fundação Ice Memory.
Por seu lado, Anne-Catherine Ohlmann, diretora da organização, diz que “somos a última geração que pode agir”. Para ela, “é uma responsabilidade que todos partilhamos”.
“Salvar estes arquivos de gelo não é apenas uma responsabilidade científica , é um legado para a humanidade.”









