Áreas protegidas para conservar animais e plantas pouco fazem pelos fungos que vivem nos solos

Apesar da sua grande importância, os fungos que vivem no subsolo, de desertos a florestas densas, passando por pradarias verdejantes, continuam a não ser devidamente considerados em estratégias e planos de conservação pelo mundo fora.

Redação

Os fungos fazem parte das comunidades de minúsculos organismos que vivem nos solos e cuja existência muitos de nós desconhecem ou ignoram. Várias espécies associam-se às raízes das plantas, criando redes micorrízicas que fazem circular nutrientes pelo solo, sendo a força vital de muitos ecossistemas.

Estima-se que 80% das espécies de plantas tenham este tipo de relação simbiótica com fungos, recebendo desses últimos nutrientes e água em troca de milhares de milhões de toneladas de carbono todos os anos. Por isso, essa associação entre as raízes das plantas e o micélio dos fungos é o que sustenta grande parte da vida que vemos.

Apesar disso, os fungos que vivem no subsolo, de desertos a florestas densas, passando por pradarias verdejantes, continuam a não ser devidamente considerados em estratégias e planos de conservação pelo mundo fora.

Uma investigação coordenada pela Sociedade para Proteção das Rede Subterrâneas (SPUN, na sigla original em inglês) comparou as áreas de distribuição de 2.858 espécies de fungos micorrízicos, que desempenham papéis ecológicos cruciais através das associações que fazem com as plantas, com a localização atual das áreas protegidas que existem pelo mundo.

Num artigo publicado na revista ‘Conservation Letters’, concluem que mais de metade desses fungos está menos protegida do que se as áreas de conservação tivessem sido desenhadas aleatoriamente. Os autores falam de um desfasamento entre dimensões fundamentais da conservação da biodiversidade: por um lado, quer-se proteger a vida que vemos, mas, por outro, os organismos escondidos no solo que fazem com que essa vida prospere continuam a ser ignorados.

“Historicamente, as áreas protegidas têm tido como foco animais e plantas em vez de fungos, e isso é notório”, diz Clara Qin, principal autora do estudo. “Descobrimos que a maioria das espécies de fungos micorrízicos está sub-representada em áreas protegidas, o que sugere que há muito espaço para melhoria”, acrescenta.

Com a criação deste atlas global da área de distribuição de milhares de espécies de fungos, os investigadores acreditam que é possível começar a fazer pender a balança da conservação também para o lado desses organismos, ajudando a encontrar as melhores localizações para criar áreas protegidas com uma eficácia redobrada.

Numa altura de crises planetárias, assegurar a conservação dos fungos micorrízicos é fundamental, não só em termos ecológicos, mas também em termos económicos. As associações com os fungos ajudam as plantas a lidar melhor com fatores de pressão, como doenças, pragas e secas, e muitas delas são espécies das quais dependem os nossos sistemas de produção alimentar.

Com cerca de 25.000 espécies de fungos micorrízicos conhecidas e agora que o método de mapeamento foi testado e confirmado, os investigadores pretende agora continuar a aumentar o atlas que começaram.

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