Um grupo de investigadores suecos acredita ter desvendado uma das maiores incógnitas do comportamento das aranhas tecedeiras: a função das misteriosas “decorações” que algumas espécies acrescentam às suas teias, conhecidas por stabilementum. Segundo um estudo publicado na revista PLOS One, estas estruturas poderão ajudar as aranhas a detetar com maior precisão o local onde a presa ficou presa na teia, ao alterar a forma como as ondas de vibração se propagam pelos fios.
Um enigma que intriga os cientistas há décadas
Muitas aranhas constroem teias em forma de espiral — as chamadas teias orbiculares — para capturar insetos voadores. Algumas espécies, como a aranha-tigre europeia (Argiope bruennichi), acrescentam padrões de fios mais densos ou em ziguezague, ou ainda plataformas circulares junto ao centro da teia. Apesar de serem visualmente marcantes, a função destas estruturas decorativas tem permanecido incerta.
Ao longo dos anos, vários investigadores sugeriram que poderiam servir para recolher água, regular a temperatura corporal, ou até para tornar a teia mais visível para afastar predadores como vespas ou aves, equilibrando, ao mesmo tempo, o grau de atratividade para as presas.
Decoração com função: ajudar a “ouvir” a teia
A nova investigação, liderada por Gabriele Greco, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, procurou testar outra hipótese: a de que as stabilementum afetam a forma como as vibrações geradas pelas presas se propagam pela teia, ajudando a aranha a localizar o ponto exato onde ocorreu o impacto.
Com base em observações de campo das teias construídas por aranhas Argiope bruennichi, a equipa recriou modelos computacionais para simular o comportamento das vibrações após o impacto de uma presa.
Os resultados mostraram que, quando as ondas vibratórias se movem na mesma direção das espirais da teia, as stabilementum ampliam a transmissão das vibrações para várias zonas da estrutura — aumentando o número de pontos onde a aranha poderia detetar o movimento. Em contrapartida, quando as ondas se propagavam em direções perpendiculares, o efeito era mínimo.
Inspiração para novos materiais
Apesar de o estudo sugerir que as stabilementum podem melhorar a perceção das aranhas, os autores alertam que outros fatores podem ter um papel mais relevante na localização das presas. Ainda assim, a descoberta poderá ter aplicações tecnológicas: compreender como estas estruturas modificam a propagação de ondas poderá inspirar o design de materiais sintéticos bioinspirados, com propriedades elásticas ajustáveis e capazes de controlar vibrações de forma precisa.
“Este estudo mostra que as stabilementum nas teias da Argiope bruennichi são mais do que um simples ornamento”, sublinham os investigadores. “Altera subtilmente a forma como certas vibrações se propagam, oferecendo novas perspetivas sobre o papel mecânico destas estruturas e sobre o desenvolvimento de materiais com propriedades ajustáveis inspiradas na natureza”, concluem.









