As fêmeas desta rã têm dificuldade em escolher um parceiro quando as opções são muitas

Poderia pensar-se que uma grande variedade de escolha facilitaria a vida às fêmeas, mas um grupo de investigadores descobriu que pode ter o efeito contrário.

Filipe Pimentel Rações

Quem nunca se viu assoberbado e sem saber o que fazer perante uma grande diversidade de escolhas? Quando há muito por onde escolher – seja num restaurante, um supermercado, numa loja ou mesmo na vida amorosa – tomar uma decisão pode ser difícil e até levar a pessoa a simplesmente desistir.

Algo de semelhante acontece a uma rã arborícola que vive em florestas na região oriental da América do Norte. Durante a época da reprodução, entre março e agosto, as Hyla chrysoscelis (ou Dryophytes chrysoscelis) juntam-se em grandes grupos ruidosos, com os machos a coaxarem em simultâneo para atraírem parceiras.

Poderia pensar-se que uma grande variedade de escolha facilitaria a vida às fêmeas, mas um grupo de investigadores descobriu que pode ter o efeito contrário.

Num artigo publicado na revista ‘iScience’, cientistas da Universidade do Tennessee (Estados Unidos da América) e do Instituto Smithsonian de Investigação Tropical (Panamá) descobriram que esse frenesim sonoro pode causar uma “sobrecarga sensorial” nas fêmeas.

Em laboratório, perceberam que, à medida que aumenta o número de machos que emitem chamamentos, diminui a capacidade das fêmeas para tomarem uma decisão.

“Queríamos mesmo perceber porque é que as fêmeas desta rã arborícola têm problemas em encontrar um parceiro”, diz Claire Hemingway, primeira autora do estudo, acrescentando que a equipa queria compreender se era porque tinham dificuldade em ouvir os machos em ambientes ruidosos ou porque simplesmente se sentiam assoberbadas pelo número de opções.

“Em termos humanos, é como entrar num bar a abarrotar e não conseguir ouvir ninguém a falar ou é como usar uma app de encontros e não conseguir escolher de entre as muitas opções?”, exemplifica.

Quando lhes eram apresentados apenas dois chamamentos, as fêmeas escolhiam um macho em 97% das vezes. Contudo, quando o número de chamamentos subia para oito, só em 82% das vezes elas escolhiam um parceiro. Mesmo nos casos em que selecionavam um macho, as fêmeas demoravam mais tempo a escolher quanto maior fosse o número de chamamentos no ar. E isso acontecia com ou sem ruído de fundo.

Para os investigadores, essa espécie de “paralisia” criada nas fêmeas pela cacofonia dos chamamentos simultâneos de vários machos mostra que, tal como acontece com os humanos, também estas rãs são suscetíveis ao efeito esmagador causado por demasiadas opções por onde escolher.

Além disso, explicam que os resultados sugerem também que constrangimentos cognitivos podem ter uma maior influência na seleção sexual dos animais do que antes se pensava.

Ao salientar os limites da capacidade dos animais para processar informação em ambientes complexos, este estudo, dizem os seus autores, abre novas vias para a investigação de como a cognição afeta a escolha de parceiros e a evolução das próprias espécies.

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