As mães é que sabem: Golfinhos aprendem com as progenitoras a usar conchas para apanhar peixes

Esse comportamento tinha sido apenas registado na baía de Shark Bay, no estado na Austrália Ocidental. Agora, uma nova investigação vem não só mostrar que golfinhos noutros locais também exibem essas técnicas, como sugerir que as crias aprendem-nas com as suas progenitoras.

Filipe Pimentel Rações

O uso de ferramentas, durante muito tempo, foi considerado apanágio da espécie humana e considerado um elemento determinante da existência de cultura.

Tudo começou a mudar na década de 1960 com os estudos da primatóloga Jane Goodall sobre os chimpanzés, observados a usar ramos para apanharem térmitas. Desde então, são já vários os casos cientificamente documentados de animais não-humanos a usarem ferramentas para singrarem nos seus ambientes naturais, deitando cada vez mais por terra a ideia de que o Homo sapiens é uma espécie como nenhuma outra.

Estudos anteriores tinham já revelado que os golfinhos podem usar conchas para apanhar peixes e esponjas para protegerem o nariz enquanto procuram presas entre as rochas e na areia. Esses comportamentos tinham sido apenas registados na baía de Shark Bay, no estado na Austrália Ocidental.

Agora, uma nova investigação vem não só mostrar que golfinhos noutros locais também exibem essas técnicas, como sugerir que as crias aprendem-nas com as suas progenitoras.

Publicado na revista ‘Marine Mammal Science’, o trabalho centra-se em golfinhos-roazes do Indo-Pacífico, da espécie Tursiops aduncus, no Parque Marinho Great Sandy, no sudoeste do estado de Queensland, também na Austrália.

Entre julho e outubro de 2025, os investigadores observaram duas fêmeas adultas a usarem conchas para apanhar peixes. Através de câmaras e drones, a equipa captou imagens desse comportamento.

Ao falarem com operadores turístico locais, perceberam que o mesmo comportamento tinha já sido observado e fotografado naquela mesma zona em 2013 e 2019. Mas acabou por passar despercebido aos cientistas por falta de monitorização.

Imagens recolhidas por esta equipa revelam também que a cria de uma das fêmeas observadas apanhava a concha minutos depois de a sua progenitora a ter largado na água. A cria segurava na concha da mesma forma que a sua mãe o fazia, e numa dessas vezes um peixe parecia ter sido capturado na ferramenta.

Os autores deste estudo argumentam que os dados recolhidos podem ser as primeiras evidências científicas de transmissão dessa técnica de progenitora para cria, com esta última a aprendê-la ao observar o adulto.

Tal como acontece com os humanos, dizem, também as mães golfinhos são os professores mais importantes das suas crias.

Este estudo vem, assim, mostrar que golfinhos em lados opostos da Austrália, separados por mais de seis mil quilómetros de terra e muitos mais de mar, aprenderam a usar conchas para apanhar peixes exatamente da mesma forma.

E os investigadores acreditam que essa aprendizagem aconteceu de forma independente em cada grupo, o que considerar evidenciar a inteligência e capacidade de inovação dos golfinhos.

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