A associação Zero defendeu hoje a constituição de equipas de saúde mental para auxiliar incendiários recorrentes, que muitas vezes têm “comportamentos aditivos”, e apelou a uma maior estabilidade nas políticas de conservação da natureza.
Estes alertas foram deixados por Paulo Lucas, representante da associação ambiental Zero, durante uma ação do Livre na Mata Nacional de Leiria, no âmbito das suas jornadas parlamentares que arrancaram hoje com foco na zona centro do país.
Numa altura em que a época de incêndios rurais se aproxima, e o Verão tem trazido ao país temperaturas elevadas, Paulo Lucas salientou que “a floresta não arde sozinha” e que “99% dos incêndios tem origem humana”.
“Pelas discussões que vemos [na época de incêndios] parece que a floresta se auto imola”, ironizou.
Paulo Lucas reconheceu que “há muita negligência” com queimadas ou utilização de máquinas, mas salientou que os fogos rurais são um “fenómeno social”.
“Há pessoas que o continuam a fazer de forma recorrente e, por vezes, a prisão não é uma solução”, realçou, defendendo a criação de “equipas de saúde mental” para auxiliar estes incendiários a lidar com “comportamentos aditivos”.
A porta-voz do Livre e líder parlamentar, Isabel Mendes Lopes, acompanhada por uma comitiva de deputados do partido, esteve esta manhã na Mata Nacional de Leiria, onde ouviu também Paulo Lucas a pedir ao partido “rédea curta” aos governantes.
O responsável fez referência ao novo Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN), apresentado pelo Governo este mês, e que prevê 500 milhões de euros por ano até 2030.
Cético de que os valores cheguem ao terreno, Paulo Lucas apelou a um “compromisso do Estado” para que este plano “não seja um fiasco”.
O dirigente da associação Zero queixou-se ainda de “muita instabilidade” nas políticas públicas nesta área: “Os governantes gostam muito de chegar e mudar a política dos anteriores”, lamentou.
A conservação da natureza, continuou, não deve ser “objeto de disputa política”, mas sim de um “consenso nacional”, que disse estar espelhado no Plano Floresta 2050, aprovado pelo parlamento.
Margarida Gonçalves, representante do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, lembrou que em 2017, 90% da Mata Nacional foi afetada pelos incêndios desse ano, seguindo-se a tempestade Leslie, em 2018, e mais recentemente as intempéries do início do ano.
“Não é fácil, não tem sido fácil, no final do ano passado tínhamos praticamente toda a área afetada pelos incêndios recuperada”, lamentou.
Interrogada por Isabel Mendes Lopes sobre o ponto de situação de muitas das árvores que ficaram caídas no terreno após as tempestades, a responsável adiantou que 97 quilómetros de estradas na mata já foram limpos, relatando dificuldades na venda da madeira recolhida.
“É impossível até ao Verão tirar toda a madeira, é uma missão praticamente impossível”, alertou, explicando que a prioridade é limpar junto de habitações.
Apesar das adversidades, Margarida Gonçalves frisou que as associações e entidades no terreno “não desistem” e continuam a trabalhar para conservar a Mata Nacional de Leiria e a sua biodiversidade, nomeadamente através de um projeto que planta diferentes tipos de árvores na mata e tem como objetivo o “restauro ativo” do território.









