Até pequenos fragmentos de floresta podem ser importantes refúgios para as aves. Tudo depende da paisagem envolvente

O investigador brasileiro Anderson Bueno falou com a Green Savers sobre o seu mais recente estudo científico, que considera ser um sinal de esperança para a conservação das aves num mundo em que as florestas continuam a ser fragmentadas e perdidas.

Filipe Pimentel Rações

As florestas cobrem cerca de um terço da superfície terrestre do planeta, chegando aos quatro mil milhões de hectares. Apesar de a desflorestação ter desacelerado de uma taxa de 17,6 milhões de hectares por ano entre 1990 e 2000 para 10,9 milhões entre 2015 e 2025, as florestas continuam sob grande pressão, especialmente devido à expansão de cidades, à degradação causada por infraestruturas como estradas, e sobretudo pela destruição para dar lugar a áreas de exploração agrícola e pecuária.

Perto de metade das florestas da Terra estão nos trópicos, regiões conhecidas pela grande variedade de formas de vida, pelo que se consideram indispensáveis para a conservação da biodiversidade do planeta, além de importantes aliados no combate à crise climática.

Pelo mundo fora, a conversão de florestas em zonas de pasto ou em áreas de cultivo de alimentos, por exemplo, está a fragmentar esses ecossistemas, criando “ilhas” florestais isoladas numa paisagem despida de árvores, ou com apenas uma mão-cheia delas, muito afastadas umas das outras, como torres solitárias que se erguem num “mar” de vegetação rasteira.

É uma teoria relativamente bem estabelecida na Ecologia que os fragmentos florestais têm menos diversidade de espécies quanto menores forem. Contudo, uma investigação recentemente divulgada na revista ‘PNAS’ vem mostrar que, mesmo sem ampliar a área de um fragmento, é possível aumentar o número de espécies de aves que nele vivem melhorando a qualidade da paisagem envolvente.

Esta ilustração resume a conclusão desta investigação: é possível aumentar o número de espécies de aves em fragmentos florestais mesmo sem aumentar o próprio fragmento, através da melhoria da paisagem envolvente. Ilustração por Matheus Gadelha.

Com esse trabalho, foi possível quantificar o quanto “o que está do lado de fora do fragmento florestal influencia o número de espécies de aves que vivem dentro dele”, explica-nos Anderson Bueno, primeiro autor do estudo que envolveu mais de meia centena de investigadores.

Detalha o ecólogo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (IFFar), no Brasil, que “a perda de espécies que seria esperada apenas com base no tamanho do fragmento pode ser atenuada quando a paisagem envolvente é mais favorável, especialmente em fragmentos florestais pequenos”. Assim, se a paisagem envolvente for adequada, a perda de espécies de aves nos fragmentos pode ser reduzida.

Os cientistas reuniram dados de quase duas mil espécies de aves documentadas em mais de mil remanescentes de florestas tropicais e subtropicais em 17 países diferentes, das Américas à Ásia, passando por África. Mais especificamente, olharam para a diversidade de espécies de aves em 669 fragmentos com envolvente terrestre, como áreas de pasto, agricultura ou cidade, e 336 com envolvente aquática, como em reservatórios de centrais hidroelétricas.

Vista aérea de um fragmento de floresta com envolvente terrestre. Foto: Alexander C. Lees.

Para perceber como é que a paisagem envolvente afeta o número de espécies de aves, foram comparados fragmentos florestais cercados por ambientes terrestres modificados pela pecuária, pela agricultura e pela urbanização com “ilhas” florestais rodeadas por água em reservatórios de centrais hidroelétricas.

A equipa acredita que os resultados obtidos são sinais de esperança para a conservação da biodiversidade, uma vez que, mesmo em fragmentos pequenos, é possível ter uma grande quantidade de espécies distintas de aves.

Envolventes de alta qualidade

Tudo depende da qualidade da paisagem que envolve os fragmentos de floresta, asseveram os investigadores. E nem todas as envolventes têm os mesmos efeitos.

Diz-nos Anderson Bueno que a paisagem circundante “mais favorável” a uma maior diversidade de espécies de aves nos fragmentos florestais é “um ambiente terrestre em que há maior presença de vegetação arbórea na vizinhança”, como árvores dispersas, arvoredo que cresce nas margens de massas de águas, como rios e lagos, ou outros fragmentos próximos.

“Os nossos resultados não indicam a existência de um nível mínimo de cobertura arbórea”, esclarece o investigador. “O que observámos foi uma relação gradual”, acrescenta: “quanto maior a presença de vegetação arbórea no entorno dos fragmentos florestais, maior tende a ser o benefício para a biodiversidade”. E esse benefício é ainda mais notório em fragmentos florestais de pequenas dimensões, explica-nos.

O ecólogo brasileiro Anderson Bueno a recolher dados durante trabalho de campo. Foto: Anderson S. Bueno.

O estudo centrou-se em florestas na América Central e do Sul, na África Ocidental e Oriental, na Índia e em países do sudeste asiático, onde se regista uma grande biodiversidade e onde há “um histórico mais recente de perturbações ambientais causadas por atividades humanas”.

Questionado sobre se algo semelhante poderia acontecer em zonas temperadas, como na Europa, Anderson Bueno recorda que, nessas regiões do planeta, há “uma menor variedade de espécies”, comparando com os trópicos, e “um histórico mais antigo do uso da terra”. Por isso, considera que “embora os padrões observados no nosso estudo possam ser aplicáveis a outras regiões do mundo, é provável que os efeitos da qualidade do entorno sobre as espécies que vivem em fragmentos florestais sejam mais pronunciados nas regiões tropicais e subtropicais”.

O investigador refere que práticas que aumentam a presença de árvores na paisagem, como sistemas agroflorestais, em plantações de café e cacau, por exemplo, ou o uso de árvores em “sebes vivas”, podem criar “um entorno mais favorável para espécies silvestres associadas aos fragmentos florestais próximos”. No entanto, o cientista avisa que, dessa forma, “é possível reduzir, mas não eliminar, os impactos da perda de habitat sobre a biodiversidade”.

Para avaliarem a diversidade de aves existente nos fragmentos, os investigadores capturaram e registaram as espécies que encontraram. Este é um papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons). Foto: Anderson S. Bueno.

Assim, para realmente proteger a biodiversidade a solução é preservar a floresta, recuperá-la e reunir os seus fragmentos numa só rede contínua de vida.

A grande maioria das paisagens fragmentadas são compostas por pequenas “ilhas” florestais, pelo que, para Anderson Bueno, a “mensagem de esperança” trazida por esta investigação “reside no facto de que esses pequenos pedaços de floresta poderem abrigar mais espécies do que seria esperado com base apenas no seu tamanho, desde que o entorno seja mais favorável à biodiversidade”.

“Ao combinar a proteção da floresta com a melhoria do seu entorno, estaremos a aumentar o valor de conservação dos fragmentos florestais”, sentencia o líder deste estudo.

A floresta ainda tem futuro? Com vontade política e investimento

Apesar de a cobertura florestal a nível global continuar em queda, pressionada pela expansão agrícola e urbana, Anderson Bueno acredita que ainda há motivos para pensar que nem tudo está, para já, perdido.

O primeiro motivo tem a ver com a legislação. Diz-nos o investigador brasileiro que, no Brasil, “os proprietários rurais devem cumprir leis que garantem a proteção da vegetação nativa e das margens dos rios”, algo que gera benefícios diretos para a biodiversidade.

“A localização das áreas a serem protegidas ou recuperadas pode ser definida de forma estratégica para maximizar esses benefícios”, afirma, acrescentando que um fragmento florestal perto de uma galeria ripícola tende a abrigar mais espécies de aves do que um fragmento com o mesmo tamanho localizado longe da galeria ripícola.

A saíra-sete-cores (Tangara seledon) foi uma das espécies registadas pelos cientistas durante este estudo. Foto: José Carlos Morante-Filho.

O segundo motivo, aponta Anderson Bueno, é económico. Para o ecólogo, “incentivos financeiros, como pagamentos por serviços ambientais, podem estimular proprietários rurais a destinar áreas adicionais de suas propriedades à conservação e à recuperação da vegetação nativa”.

“Esse tipo de incentivo tem o potencial de conciliar a conservação da biodiversidade com os interesses económicos dos proprietários rurais”, salienta, convertendo duas dimensões frequentemente antagónicas em faces de uma mesma moeda.

Recentemente, o presidente brasileiro Lula da Silva revelou que os alertas de desflorestação na Amazónia caíram 37,5% e 8,2% no Cerrado, entre agosto e maio de 2025 e o mesmo período de 2026. Além disso, estima-se que a perda de floresta na Amazónia tenha sido reduzida em 8,7% de 2024 para 2025, com uma redução também registada no Cerrado. As conquistas são amplamente atribuídas às políticas ambientais do atual governo brasileiro, que tenta recuperar os danos causados pelo executivo de Jair Bolsonaro.

Para Anderson Bueno, “apesar dos desafios impostos pela perda de habitat e pelas alterações climáticas, avanços recentes na redução da desflorestação na Amazónia brasileira mostram que resultados positivos são possíveis quando há vontade política e investimento em conservação”.

Dentro de uma fragmento de floresta na Amazónia. Foto: Anderson S. Bueno.

Lembrando que “as ações humanas são uma grande ameaça à biodiversidade do planeta”, especialmente motivadas pela “crescente demanda de produtos” por parte de “uma população cada vez maior e mais consumista”, o cientista avisa que “o futuro da biodiversidade dependerá da nossa capacidade de alinhar políticas públicas, incentivos económicos e práticas produtivas que reduzam os impactos ambientais e favoreçam a conservação dos ecossistemas naturais”.

Para ele, isso é possível “se a política e a economia caminharem juntas”.

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