Atual sistema alimentar é prejudicial à nossa saúde e ao planeta

Uma ampla revisão publicada na Frontiers in Science alerta para a urgência de enfrentar sistemas alimentares insustentáveis — refletidos nas profundas mudanças do nosso ambiente alimentar — como condição essencial tanto para a saúde pública como para o clima.

Redação

Uma ampla revisão publicada na Frontiers in Science alerta para a urgência de enfrentar sistemas alimentares insustentáveis — refletidos nas profundas mudanças do nosso ambiente alimentar — como condição essencial tanto para a saúde pública como para o clima.

O artigo evidência que a obesidade e os danos ambientais têm uma origem comum: um sistema alimentar orientado pelo lucro, que incentiva o consumo excessivo e prejudica a saúde. Segundo os autores, o ambiente alimentar atual promove produtos hipercalóricos e pobres em fibra, como alguns alimentos ultraprocessados (AUP), sendo os mais energéticos aqueles que mais contribuem para o aumento de peso. Os mesmos sistemas de produção, sobretudo os que envolvem a pecuária, libertam grandes quantidades de gases com efeito de estufa e exercem forte pressão sobre o solo e os recursos hídricos.

A revisão, liderada pelo professor Jeff Holly, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, conclui que intervir sobre o ambiente alimentar pode gerar benefícios duplos, simultaneamente para a saúde e para o clima.

Entre as recomendações estão a atribuição de subsídios a alimentos saudáveis, a aplicação de impostos e rótulos de advertência a alimentos particularmente nocivos, bem como restrições à comercialização agressiva de produtos hipercalóricos e pobres em fibra, sobretudo em comunidades de baixos rendimentos e junto das crianças.

Os autores contestam ainda a ideia de que os medicamentos para a perda de peso sejam uma solução milagrosa para a obesidade, sublinhando que não atacam os fatores sistémicos que estão igualmente na origem dos impactos climáticos.

“Embora a obesidade seja uma doença complexa, impulsionada por múltiplos fatores interligados, o principal motor tem sido a transformação do sistema alimentar orientada para o consumo ao longo dos últimos 40 anos”, afirma o professor Holly. “Ao contrário dos medicamentos ou da cirurgia para perda de peso, atuar sobre esse motor beneficia tanto as pessoas como o planeta”, avisa.

Dietas que moldam o uso do solo e o clima

Até 2035, prevê-se que metade da população mundial viva com excesso de peso ou obesidade — doenças que aumentam o risco de patologias graves, como as doenças cardiovasculares e o cancro. Em paralelo, o aquecimento global provoca atualmente a morte de uma pessoa por minuto em todo o mundo, o que corresponde a cerca de 546 mil mortes por ano no período entre 2012 e 2021, um aumento de 63% face à década de 1990.

A produção alimentar é responsável por cerca de um quarto a um terço das emissões totais de gases com efeito de estufa e constitui a principal causa de conversão de solos, impulsionando a desflorestação e a perda de biodiversidade.

Os autores salientam que, mesmo que as emissões de combustíveis fósseis cessassem hoje, os atuais sistemas alimentares, por si só, poderiam ainda empurrar a temperatura global para além do limiar dos 2 °C. A produção de carne de ruminantes é particularmente impactante, sendo a carne de bovino responsável por emissões muito superiores às das fontes de origem vegetal.

“Não é possível resolver a crise climática sem transformar aquilo que comemos e a forma como o produzimos”, afirma o primeiro autor, professor Paul Behrens, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade de Leiden, nos Países Baixos. “Para enfrentar a crise climática, é necessário enfrentar sistemas alimentares que aumentam as emissões e nos empurram para dietas densas em energia e altamente processadas, ricas em produtos de origem animal”.

A revisão defende reformas profundas dos sistemas alimentares, substituindo AUP muito energéticos por alimentos não processados e reduzindo o consumo de produtos de origem animal. Os autores pedem também um sistema de classificação mais claro para os AUP, sublinhando que nem todos são iguais. Por exemplo, a carne processada e os AUP pobres em fibra e ricos em energia apresentam piores resultados, tanto para a saúde como para o ambiente, do que AUP menos energéticos, ricos em fibra e de base vegetal.

Dos mitos da força de vontade às soluções sistémicas

A obesidade aumenta o risco de morte prematura e é um dos principais motores das doenças não transmissíveis. Um estudo recente realizado na China concluiu, por exemplo, que metade dos novos diagnósticos de cancro estava associada à obesidade, com um aumento particularmente preocupante entre as gerações mais jovens.

No seu conjunto, os impactos na saúde fazem da obesidade um dos maiores fatores de carga global de doença, para além do seu peso económico.

Os autores reconhecem que os medicamentos para a perda de peso e a cirurgia bariátrica são opções importantes para pessoas com obesidade, mas sublinham que não alteram o ambiente mais amplo que afeta populações inteiras e os ecossistemas. Persistem também dúvidas quanto à acessibilidade, segurança a longo prazo e disponibilidade global sustentada destes tratamentos, sobretudo numa altura em que a obesidade afeta cada vez mais pessoas jovens e de baixos rendimentos.

“O aumento da obesidade e das doenças não transmissíveis em crianças e jovens é alarmante”, afirma a coautora, professora Katherine Samaras, do St Vincent’s Hospital Sydney, do Garvan Institute of Medical Research e da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália. “Tanto para adultos como para crianças, a força de vontade individual não consegue competir com campanhas de marketing agressivas”.

“Embora tratamentos como medicamentos e cirurgias ofereçam opções terapêuticas relevantes para indivíduos, não substituem a necessidade de enfrentar ambientes alimentares e de vida que são simultaneamente pouco saudáveis e insustentáveis”, acrescenta.

Ações para a saúde e o clima

A revisão reúne evidência recente das áreas da epidemiologia, endocrinologia, psicologia, saúde pública, nutrição e sistemas alimentares, economia e ciências ambientais. Com base nesses dados, os autores recomendam:

  • impostos sobre AUP densos em energia e bebidas açucaradas;

  • subsídios para tornar os alimentos saudáveis e minimamente processados mais acessíveis, financiados por impostos sobre alimentos pouco saudáveis;

  • aumento da consciencialização pública sobre o verdadeiro custo dos alimentos, através da formação do público e dos profissionais de saúde;

  • rotulagem frontal inspirada no modelo do tabaco e restrições à comercialização de alimentos não saudáveis dirigida às crianças;

  • políticas de apoio a refeições escolares saudáveis e ao abastecimento alimentar local;

  • transição das dietas para alimentos de origem vegetal, ricos em fibra e minimamente processados, com menor consumo de produtos de origem animal.

Segundo os autores, prevenir o aumento de peso através de ambientes alimentares mais saudáveis seria “muito mais barato e menos prejudicial” do que lidar com as consequências da obesidade e das alterações climáticas, ou tratar indivíduos em vez de reformar sistemas. Em 2019, os custos associados à obesidade ultrapassaram 2% do PIB mundial e, se a tendência se mantiver, poderão exceder os 4 biliões de dólares até 2035.

Os autores sublinham que as estratégias nacionais para combater a obesidade têm-se centrado sobretudo na responsabilidade individual, com base na perceção de que se trata de uma questão de estilo de vida. Essa abordagem, afirmam, falhou em travar o aumento da obesidade. Defendem, por isso, uma reforma coordenada dos ambientes alimentares, guiada pela ciência, capaz de atacar simultaneamente as causas profundas da obesidade e os danos ambientais.

Reenquadrar a obesidade como uma doença poderá, segundo os autores, contribuir para melhorar as políticas públicas, transferindo a responsabilidade dos indivíduos para os sistemas que moldam as suas escolhas.

“Tratar as pessoas — em vez de tratar o sistema que as está a tornar doentes — perpetua a ideia errada de que a obesidade resulta de uma falta de força de vontade individual”, acrescenta o professor Holly. “Para reduzir o impacto do sistema alimentar na saúde e no clima, os governos têm de reconhecer que tanto as alterações climáticas como a obesidade são sintomas de problemas sistémicos orientados pelo lucro — e atuar na raiz do problema”, adianta.

Os autores reconhecem que, apesar de múltiplas linhas de evidência ligarem os alimentos ultraprocessados, a obesidade e os impactos climáticos, os mecanismos subjacentes são complexos e ainda não totalmente compreendidos. Defendem, por isso, a necessidade de mais investigação para clarificar os processos causais e reforçar a base científica.

“Corremos o risco de comprometer os ganhos alcançados pela inovação em saúde e pelo crescimento económico se não enfrentarmos com urgência estas duas crises interligadas”, conclui o professor Holly.

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