Bonobos também sabem brincar ao “faz de conta”. A imaginação não é, afinal, exclusiva dos humanos

Fingir que algo é outra coisa que não o que realmente é exige capacidade para imaginar. Até agora pensávamos que era exclusiva dos humanos, mas um bonobo muito especial desafiou essa ideia e mostrou que também os primatas são capazes de olhar para uma coisa e voluntariamente ver outra.

Filipe Pimentel Rações

Fingir que um pau é uma espada, que um prato de papel é o volante de um automóvel de corrida, que um copo de plástico é uma chávena de porcelana cheia de chá quente.

Certamente muitos leitores se identificarão com algum destes cenários, especialmente enquanto lembranças de brincadeiras de “faz de conta” na infância.

Fingir que algo é outra coisa que não o que realmente é exige capacidade para imaginar. Até agora pensávamos que era exclusiva dos humanos, mas um bonobo muito especial desafiou essa ideia e mostrou que também os primatas, e possivelmente outros animais, são capazes de olhar para uma coisa e voluntariamente ver outra.

Esse bonobo, ou chimpanzé-pigmeu (Pan paniscus), era Kanzi, que morreu em março do ano passado aos 44 anos, no centro de investigação e conservação da organização Ape Initiative, nos Estados Unidos da América (EUA), onde vivia desde 2013.

Kanzi é considerado um bonobo revolucionário, pois os estudos que com ele foram feitos, especialmente ao nível da cognição e inteligência, mostraram que os primatas são capazes de muito mais do que inicialmente se pensava. Agora, mesmo depois de falecido, Kanzi continua a fascinar e a provar que a distância que achamos que separa os animais dos humanos é, afinal, mais curta do que achamos.

Festas de chá

Nas instalações da Ape Initiative, dois investigadores da Universidade Johns Hopkins, puseram à prova Kanzi com festas de chá imaginário.

Durante essas interações, divididas em três sessões, um investigador e Kanzi sentavam-se de frente um para o outro, com uma mesa entre eles, sobre a qual estavam ou jarros e copos vazios ou taças e frascos vazios.

Numa primeira sessão, na mesa estavam dois copos transparentes e vazios e um jarro, também transparente e vazio. O investigador inclinava o jarro sobre os copos, fingindo neles deitar sumo imaginário. Depois, pegava num dos copos e deitava o “sumo” de volta no jarro.

De seguida, o investigador perguntava a Kanzi onde estava o sumo e, quase todas as vezes, o bonobo apontava para o copo que ainda continha o sumo imaginário.

Mas se calhar Kanzi estava a apontar para o copo por realmente achar que nele estava sumo, mesmo que não conseguisse vê-lo, e não estaria a usar a sua imaginação e a brincar ao “faz de conta”. Os cientistas quiseram também testar essa hipótese.

Apresentaram ao bonobo dois copos: um com sumo verdadeiro e outro com sumo imaginário. Perguntando-lhe o que queria, Kanzi apontava para o sumo verdadeiro quase sempre.

Numa terceira sessão, os investigadores colocaram em frente de Kanzi uma taça e frascos transparentes e vazios. Na taça estariam uvas imaginárias. Os investigadores tiraram uma e colocaram-na dentro de um dos frascos e perguntaram a Kanzi onde estava a uva, e ele apontava quase sempre para o frasco certo.

Christopher Krupenye, um dos investigadores e coautor do estudo que dá conta da descoberta, diz que “é realmente revolucionário” que as mentes dos primatas consigam ir “além do aqui e agora”.

Em comunicado, o cientista afirma que há muito que a imaginação é considerada um elemento fundamental daquilo que faz de nós humanos, “mas a ideia de que poderá não ser exclusiva da nossa espécie é realmente transformador”.

“A Jane Goodall descobriu que os chimpanzés fazem ferramentas, e isso levou a uma mudança na definição do que significa ser humano. E também isto realmente convida-nos a reconsiderar o que nos torna especiais e sobre a vida mental das outras criaturas”, salienta Krupenye.

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