Cachalotes têm dialetos diferentes num lado e no outro do Mediterrâneo (áudio)

Liderado pelas universidades britânicas de St. Andrews e de Bristol, o trabalho envolveu o estudo de 20 anos de gravações das vocalizações de grupos de cachalotes, a maior baleia com dentes do mundo (também conhecidos como odontocetos), que vivem duas regiões desse mar: em torno das Ilhas Baleares e ao largo da costa ocidental da Grécia.

Filipe Pimentel Rações

Os cachalotes (Physeter macrocephalus) que vivem no Mar Mediterrâneo falam todos a mesma “língua”, mas expressam dialetos diferentes, desvendando o que uma equipa de cientistas diz ser uma “evolução cultural” em curso.

Liderado pelas universidades britânicas de St. Andrews e de Bristol, o trabalho envolveu o estudo de 20 anos de gravações das vocalizações de grupos de cachalotes, a maior baleia com dentes do mundo (também conhecidos como odontocetos), que vivem duas regiões desse mar: em torno das Ilhas Baleares e ao largo da costa ocidental da Grécia.

Os cachalotes, que chegaram ao Mediterrâneo há cerca de 20.000 anos e que se tornaram geneticamente diferentes face a outras populações, comunicam vocalmente uns com os outros através de combinações intricadas de cliques, chamados de codas. A forma como estruturam essas vocalizações são usadas como espécies de “identificadores culturais”, porque cada grupo tem a sua própria “assinatura” de cliques.

Até agora pensava-se que todos os cachalotes do Mediterrâneo pertenciam ao mesmo clã vocal, caracterizado por um tipo de coda predominante, composto por três cliques, seguidos poer uma pausa e por um quatro clique final, um padrão que na gíria científica é designado de tipo “3+1”.

No entanto, esta investigação, publicada recentemente na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, vem mostrar que, afinal, os cachalotes que vivem nas águas gregas produzem uma forma mais rápida do tipo “3+1”, comparativamente à coda dominante nos grupos da região mais ocidental do Mediterrâneo.

Dialeto dos cachalotes das Ilhas Baleares. Fonte: University of St. Andrews.

 

Mais interessante ainda foi o facto de os investigadores terem percebido que o grupo grego era capaz de usar o dialeto mais lento característico dos cachalotes do Mediterrâneo ocidental. Para eles, isso significa que essas baleias estão familiarizadas com ambos os dialetos.

“O Mediterrâneo tem sido o berço de aspetos significativos da evolução cultural humana, desde a Grécia Antiga. Ao longo de todo esse período, a cultura dos cachalotes também tem estado a evoluir, e agora temos uma ideia mais clara do quão lento esse processo é”, explica Like Rendell, principal coautor do estudo.

Ainda assim, muitas questões continuam sem resposta. Uma delas tem a ver com a razão, para já desconhecida, que levou ao surgimento de um novo dialeto entre os cachalotes do Mediterrâneo.

Dialeto dos cachalotes que vivem perto da costa da ocidental da Grécia. Fonte: University of St. Andrews.

 

Apesar da sua presença milenar nesse mar, os cachalotes do Mediterrâneo são uma população classificada como “Criticamente em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Além de ser uma população geneticamente isolada e pequena, com uns poucos milhares de baleias, apresenta uma tendência de declínio, em muito devida à ameaças de origem humana, como colisões com embarcações e lesões e mortes causadas pelo enredamento em redes e pesca que têm como alvo outras espécies, como o atum.

Os investigadores consideram que o estudo destes dialetos fornece informação importante sobre a estrutura populacional e as dinâmicas sociais desta população ameaçada, especialmente numa altura em que cada vez mais a cultura não-humana está a ser considerada como um fator de relevo na conservação de grandes animais.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.