Câmaras de alta velocidade revelam ataques de cobras em câmara lenta

Poucas ações na natureza despertam tanto medo — ou fascínio — como a mordedura de uma serpente. Agora, uma nova investigação liderada pela Universidade Monash revelou, com precisão inédita, a forma exata como as cobras venenosas atacam.

Redação

Poucas ações na natureza despertam tanto medo — ou fascínio — como a mordedura de uma serpente. Agora, uma nova investigação liderada pela Universidade Monash revelou, com precisão inédita, a forma exata como as cobras venenosas atacam. Utilizando câmaras 3D de alta velocidade, os investigadores capturaram em detalhe milimétrico a impressionante precisão de víboras, cobras e serpentes de presas posteriores.

O estudo, publicado na Journal of Experimental Biology, é o primeiro a comparar o desempenho do ataque em 36 espécies venenosas de todo o mundo. As serpentes foram filmadas enquanto investiam contra um gel morno, semelhante ao tecido muscular, que simulava a carne de um animal.

A autora principal, Silke Cleuren, que realizou o trabalho no âmbito do seu doutoramento sob a orientação do Professor Alistair Evans, da Escola de Ciências Biológicas, explica que o objetivo era compreender como cada família de serpentes desenvolveu a sua própria estratégia de inoculação de veneno.

“As serpentes venenosas aperfeiçoaram a arte da velocidade, da precisão e do controlo”, afirma Cleuren.
“Algumas víboras conseguem atingir a presa em menos de um décimo de segundo — mais rápido do que o piscar de um olho humano. O mais impressionante é a forma distinta como cada grupo atinge o mesmo objetivo letal”, acrescenta.

Para obter as imagens, a investigadora deslocou-se ao Venomworld, nos arredores de Paris, onde se recolhem venenos de algumas das cobras mais perigosas do planeta, utilizados em investigação médica e farmacêutica.

Em colaboração com Anthony Herrel, do Muséum national d’Histoire naturelle (França), e Rémi Ksas, do Venomworld, a equipa estimulou algumas espécies a atacar o gel aquecido, filmando cada movimento a 1.000 fotogramas por segundo.

“Provocar uma cobra venenosa com um pedaço de gel numa vara foi uma verdadeira descarga de adrenalina — admito que me encolhi algumas vezes”, confessa Cleuren. “Mas as imagens revelaram comportamentos impossíveis de observar a olho nu”, adianta.

Os resultados mostraram que as víboras desferem o golpe em menos de 100 milissegundos, “caminhando” depois com as presas até à posição ideal antes de injetar o veneno. Já os elapídeos aproximam-se lentamente antes de atacar e mordem repetidamente para espremer o veneno na presa. Por seu lado, os colubrídeos, cujas presas se situam mais atrás na boca, movimentam as mandíbulas de um lado para o outro para abrir uma fenda que maximiza a inoculação.

O Professor Evans considera que as conclusões oferecem uma nova perspetiva sobre a evolução de uma das armas mais sofisticadas da natureza.

“Cada família de serpentes desenvolveu um ataque perfeitamente ajustado ao seu estilo de caça e ao tipo de presa”, explica. “É um exemplo brilhante de como a evolução molda a forma e a função no mundo natural”, conclui.

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