Caracóis, os “engenheiros químicos” do muco, podem ajudar a criar materiais mais sustentáveis

Um equipa de cientistas revela que os caracóis-riscados (Cepaea nemoralis) são capazes de alterar a composição química do seu muco para torná-lo mais líquido, sólido, pegajoso ou escorregadio. Esse feito de “engenharia química” tem por base um único conjunto de elementos que o caracol manipula para produzir o tipo de muco que pretende.

Redação

Os caracóis, tal como as lesmas, são conhecidos por produzirem muco com o qual formam trilhos reluzentes e pegajosos à sua vagarosa passagem. Embora se possa pensar que essa secreção viscosa nada tem de espetacular, uma nova investigação vem revelar que há muito de interessante sobre essa substância.

Num artigo publicado recentemente na revista ‘Science’, uma equipa do Instituto Max Planck (Alemanha) revela que os caracóis-riscados (Cepaea nemoralis) são capazes de alterar a composição química do seu muco para torná-lo mais líquido, sólido, pegajoso ou escorregadio. Esse feito de “engenharia química” tem por base um único conjunto de elementos que o caracol manipula para produzir o tipo de muco que pretende.

Para desvendarem os segredos dessa capacidade, os investigadores decidiram analisar, ao pormenor, a “receita” usada pelo caracol para conceber dos diferentes mucos, e, sendo produzido por um ser vivo e tendo diferentes propriedades, descrevem a substância como um “biomaterial multifuncional”.

“O muco do caracol pode parecer insignificante à primeira vista, mas é um material incrivelmente versátil”, diz Franziska Jehle, principal coautora do estudo.

“O facto de o caracol ser capaz de alterar especificamente as propriedades do seu muco usando os mesmos componentes básicos é o que faz dele um objeto de investigação tão fascinante”, acrescenta.

Para perceberam como é que o caracol produz materiais tão diferentes, os cientistas analisaram cinco diferentes tipos de muco: o que permite a locomoção, o que ajuda o animal a fixar-se a superfícies, o que o protege da desidratação, o que sela a sua concha para longos períodos de descanso e o que serve como mecanismo de defesa.

Todos esses tipos de muco têm os mesmos componentes essenciais: proteínas, sobretudo colagénio, e cálcio. E o caracol produzir os vários tipos de muco ao combinar diferentes proporções de cada um deles.

A análise química revelou que o colagénio tipo IV é o principal elemento do muco, uma substância proteica conhecida por desempenhar um papel estrutural na pele, ossos e articulações humanas. Quanto maior for a concentração de colagénio e outras proteínas, mais denso será o muco, e os investigadores sugerem que o cálcio é usado para tornar a substância mais coesa e forte.

Os resultados deste estudo vão muito além do próprio caracol e podem mesmo ajudar a conceber novos materiais sustentáveis.

“As descobertas deste estudo vão muito para lá da biologia do caracol”, assegura Peter Fratzl, que também assina o artigo.

“Os materiais naturais conseguem ter uma enorme variedade de funções com apenas alguns elementos básicos. É muito importante compreender os princípios subjacentes para o desenvolvimento de materiais sustentáveis.”

Acreditam os investigadores que a partir do estudo do muco do caracol será possível criar adesivos, revestimentos e materiais com aplicações médicas que tenham menores impactos negativos sobre o ambiente.

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