Cem mil euros para travar o fogo na Mata do Valado

As tempestades do início do ano deixaram 25 hectares da Mata Nacional do Valado cobertos de madeira partida. O Lidl e a WWF têm cerca de um ano de trabalho pela frente, mas o prazo a sério é o verão.

Green Savers

As tempestades do início do ano deixaram o chão da mata coberto de madeira partida. Com o verão à porta, o Lidl Portugal e a WWF Portugal correm contra o tempo para limpar 25 hectares antes que o calor faça o resto.

Há matas que se reconhecem pelo som. A do Valado, encaixada no Pinhal de Leiria, sempre teve o seu, o do vento a atravessar os pinheiros-bravos que ali foram plantados há séculos para segurar as areias que avançavam do mar. Esse som mudou no início deste ano. As tempestades que fustigaram a costa portuguesa, com a depressão Kristin à cabeça, deitaram abaixo árvores aos magotes e deixaram o solo coberto de troncos partidos e biomassa. O que ficou no chão é, hoje, um problema com data marcada: o verão.

É contra esse relógio que arranca agora uma intervenção financiada pelo Lidl Portugal, que atribui 100 mil euros à WWF Portugal para limpar e recuperar 25 hectares da Mata Nacional do Valado, no distrito de Leiria. O anúncio foi feito a propósito do Dia Internacional da Biodiversidade, mas a urgência tem pouco de simbólica. A madeira seca e a vegetação acumulada são combustível à espera de uma faísca, e cada grau a mais de temperatura aproxima o cenário que toda a gente quer evitar: um incêndio que ameace, ao mesmo tempo, as populações vizinhas e um dos territórios com maior valor natural da região.

Pinheiros derrubados sobre um caminho de terra na Mata Nacional do Valado
As tempestades do início do ano derrubaram árvores e deixaram os caminhos obstruídos.

Os trabalhos começam de imediato e devem prolongar-se por cerca de um ano, sempre em articulação com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A primeira fase é a mais óbvia e a mais ingrata: retirar do terreno o material lenhoso danificado e controlar as espécies invasoras que, além de empobrecerem o ecossistema, ardem com particular facilidade e ajudam o fogo a alastrar. Só depois de aliviar a mata desse peso é que faz sentido pensar no passo seguinte.

E o passo seguinte é devolver vida ao que ficou. A estratégia passa por reflorestar e enriquecer os 25 hectares com pinheiro-bravo e espécies autóctones, como o medronheiro, o carrasco e o aderno, que funcionam como barreiras naturais mais resistentes à passagem das chamas. Está também prevista a recuperação dos trilhos do Monte de São Bartolomeu, na Nazaré, uma verdadeira ilha de biodiversidade que se quer manter acessível a quem a visita, mas em segurança.

Uma peça com séculos de história

Não é uma mata qualquer. O Valado integra o Pinhal de Leiria, o histórico Pinhal do Rei, semeado ainda na Idade Média precisamente para travar o avanço das dunas sobre os campos agrícolas do interior. Recuperá-lo é mexer numa peça com séculos de história, que continua a desempenhar funções bem concretas: fixar os solos, ajudar a regular a água e abrigar fauna e flora que em poucos lugares do país sobrevivem com esta densidade. Quando uma área destas se degrada, não se perde apenas paisagem; perde-se uma infraestrutura natural que demorou gerações a formar-se.

Para Vanessa Romeu, Head of Corporate Affairs do Lidl Portugal, a lógica é simples e direta. “No Lidl, acreditamos que proteger a biodiversidade exige ações concretas e, acima de tudo, oportunas. Como insígnia alimentar, sabemos bem que sem a biodiversidade e o equilíbrio da natureza não há campos férteis nem garantia de alimentos para o futuro”, afirma. O cenário da mata, sublinha, “pedia uma intervenção urgente antes que o calor do verão elevasse o risco de incêndio na região”. Mais do que recuperar um património natural único, defende, trata-se de investir na “segurança das populações e na resiliência de um território que nos é muito próximo”.

Do lado da WWF Portugal, a Diretora Executiva, Ângela Morgado, coloca a intervenção numa linha de continuidade. “Com este projeto, damos continuidade ao nosso trabalho de intervenção em áreas prioritárias, neste caso na Mata do Valado, fortemente afetada pelas tempestades do início do ano”, explica. O reverso, deixa claro, seria deixar a mata entregue à sua sorte: “Sem o apoio do Lidl, esta intervenção não seria possível, deixando esta área mais vulnerável a incêndios, à perda de biodiversidade e a uma degradação ecológica progressiva.”

O projeto, contudo, não se esgota no terreno. Há uma componente menos visível, mas com efeitos potencialmente mais duradouros: a capacitação de quem decide. A WWF Portugal vai trabalhar com os 16 municípios do distrito de Leiria, analisando os respetivos Planos Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas, promovendo workshops técnicos e produzindo guias de boas práticas assentes em soluções baseadas na natureza. O objetivo é dar às autarquias ferramentas para prevenir riscos e responder melhor a fenómenos climáticos extremos que, como o início de 2026 demonstrou, deixaram de ser exceção.

O dinheiro veio dos sacos com a tartaruga

A aposta também não é inédita. Ainda este ano, em março, o Lidl e a WWF tinham unido esforços para restaurar áreas naturais no Gerês, e o Valado surge agora como o capítulo seguinte de uma colaboração que se vai estendendo de norte a sul do país. Pelo meio, o próprio Ministério da Agricultura tem acompanhado no terreno os trabalhos de silvicultura preventiva nas matas nacionais da região, sinal de que a urgência é reconhecida bem para lá das fronteiras desta parceria.

Vale a pena perceber de onde vem o dinheiro. Os 100 mil euros nascem da parceria continuada entre o Lidl Portugal e a WWF Portugal e, mais concretamente, das vendas dos conhecidos sacos de compras solidários ilustrados com uma tartaruga: o mesmo gesto de quem leva as compras para casa transforma-se, no fim da linha, em pinheiros plantados e mata limpa. É a tradução prática do pilar “Respeitar a Biodiversidade” da estratégia de sustentabilidade da marca e a confirmação, mais uma vez, de que proteger a natureza “Vale Mesmo a Pena”.

No fundo, é uma corrida contra o calendário que aí vem. A mata que o vento despenteou no Inverno arrisca-se a arder no Verão, a menos que, entretanto, mãos suficientes a limpem a tempo. É esse o prazo, e é esse o desafio.

Artigo publicado na edição n.º 23 da revista Green Savers.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.