Cheias na Indonésia podem ter empurrado esta espécie de orangotango para ainda mais perto da extinção

Além da perda de vidas humanas, o desastre, resultado da queda de mais de mil milímetros de chuva em quatro dias, pode ter empurrado para mais perda da extinção um parente evolutivo próximo da nossa espécie: os orangotangos-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis).

Filipe Pimentel Rações

No final do passado mês de novembro, chuvas torrenciais inundaram o norte da ilha de Sumatra, no arquipélago da Indonésia. Estima-se que tenham morrido perto de mil pessoas.

Além da perda de vidas humanas, o desastre, resultado da queda de mais de mil milímetros de chuva em quatro dias, pode ter empurrado para mais perto da extinção um parente evolutivo próximo da nossa espécie: os orangotangos-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis).

Descritos somente em 2017 como uma espécie de direito próprio, estima-se que não existiam mais de 800 desses primatas em todo o mundo, e quase todos concentrados numa só região, nas montanhas de Batang Toru, na província de Sumatra do Norte. Se antes do desastre os orangotangos-de-tapanuli eram considerados uma espécie ameaçada, classificada como “Criticamente em Perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, depois da catástrofe podem estar a um passo da extinção.

Num artigo que está em fase de revisão para ser publicado, liderado pelo investigador Erik Meijaard, da Universidade de Kent, as chuvas intensas de novembro provocaram deslizamentos de terras e cheias na região ocidental de Batang Toru, casa da maior parte da população de orangotangos-de-tapanuli. Com base em imagens de satélite de antes e de depois do desastre, a equipa estima que mais de 5.000 de floresta tenham sido arrastados pela enxurrada.

Ainda, calculam que entre 33 e 54 orangotangos tenham sido afetados e que muitos tenham realmente morrido devido à queda de árvores, aos deslizamentos e às cheias.

Dizem os cientistas que uma taxa de mortalidade anual acima dos 1% é suficiente para levar a espécie à extinção, uma vez que se reproduz muito lentamente, com um intervalo entre nascimentos que pode ir dos seis aos nove anos. Dados preliminares que serviram de suporte ao estudo apontam que o desastre de novembro terá resultado numa taxa de mortalidade estimada de entre 6,2% e 10,5%, o que os autores descrevem como um “choque demográfico crítico” e uma perturbação que traz consigo o risco de extinção.

“Apelamos ao governo indonésio e à comunidade internacional para que tomem medidas imediatas e que prestem apoio para garantir a sobrevivência do orangotango-de-tapanuli”, escrevem os investigadores, deixando transparecer o sentido de urgência.

O desastre de novembro, continuam no artigo, “mostra a crescente ameaça que eventos extremos provocados pelo clima representam para espécies já a serem empurradas para o limiar da extinção pela perda de habitat”.

“Sem uma intervenção imediata, o orangotango-de-tapanuli enfrenta o risco iminente de se tornar a primeira espécie de grande primata a extinguir-se na história moderna”, alertam.

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