Incêndios mais frequentes, duradouros e destruidores são um dos efeitos mais visíveis das alterações climáticas. Os impactos das nuvens escuras de fumo e de cinzas vão muito para lá da área de ocorrência do fogo, podendo estender-se por centenas de quilómetros.
Já vários estudos apontam para os efeitos negativos na saúde humana da poluição do ar gerada pelos incêndios florestais, incluindo em bebés por nascer. Agora, uma nova investigação vem revelar uma outra faceta desses fenómenos.
Uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Utah (Estados Unidos da América, EUA) quis perceber como é que as partículas libertadas pelos fogos afetam os ecossistemas, se geram algum benefício ou se, pelo contrário, são prejudiciais.
Focando-se nos EUA, os cientistas analisaram dados de 2014, 2020 e 2022 sobre os dias em que o céu estava coberto de fumo e os dias de chuva. Como estavam interessados em olhar especificamente para a chuva afetada pelo fumo, cruzaram os dados para identificarem os dias em que fumo e chuva ocorreram ao mesmo tempo.
Os dias de chuva com fumo representaram, em média, entre 1% e 5% dos anos analisados, e os investigadores perceberam, nesse seguimento, que esse conjunto de dias foi responsável por fornecer até 30% da quantidade anual de azoto e fósforo que entra nos ecossistemas através da chuva.
Dados sobre análises a amostras de chuva recolhidas pelo Programa Nacional de Deposição Atmosférica (NADP) dos EUA, que reúne entidades públicas, universidade, empresas e organizações não-governamentais, mostram que nutrientes como cálcio, magnésio, sódio, potássio, sulfato, nitrato, cloreto, amónio e ortofosfato eram depositados em muito maiores quantidades em dias de fumo e chuva do que em dias em que esses dois fenómenos não se cruzavam.
“Os nossos resultados mostram que a deposição húmida afetada pelo fumo pode fornecer nutrientes biologicamente importantes aos ecossistemas, o que poderá estar a levar à fertilização induzida pelo fogo dos ecossistemas terrestres e aquáticos”, explica a equipa.
Apesar de isso poder ser benéfico para ecossistemas com falta desses nutrientes, a deposição das partículas de fumo pelas chuvas pode levar a concentrações excessivas de nutrientes, com impactos ecológicos negativos. Por exemplo, em rios e lagos, esse excesso pode levar à proliferação massiva de algas, asfixiando esses ecossistemas e podem em risco animais e plantas que neles vivem.
Este estudo teve como foco os EUA, mas os fenómenos analisados podem estar também a ocorrer noutras regiões do mundo onde chuva e fumo de incêndios se combinam para fazer cair sobre a terra as partículas que em tempos constituíram florestas, bosques e matas.









