Ciência cidadã ajuda a desvendar comportamento peculiar destes aracnídeos

São já vários os casos de fotografias ou vídeos captados por cientistas cidadãos que levaram ao aprofundamento do conhecimento existente sobre certas espécies, à descoberta de novas ou mesmo à redescoberta de alguma que se pensava extinta. Agora, uma nova investigação vem reforçar a importância da ciência cidadã para desvendar os segredos da Natureza.

Filipe Pimentel Rações

Cientistas amadores e entusiastas do mundo natural são cada vez mais vistos como fundamentais para a investigação científica formal, ajudando a documentar a biodiversidade e a complementar os esforços de investigadores.

São já vários os casos de fotografias ou vídeos captados por cientistas cidadãos que levaram ao aprofundamento do conhecimento existente sobre certas espécies, à descoberta de novas ou mesmo à redescoberta de alguma que se pensava extinta.

Agora, uma nova investigação vem reforçar a importância da ciência cidadã para desvendar os segredos da Natureza.

Um grupo de cientistas do Instituto Smithsonian de Investigação Tropical (Panamá), da Universidade de São Paulo (Brasil) e de outras instituições recorreu a imagens publicadas na iNaturalist, uma das plataformas mais populares de ciência cidadã, para compreender a evolução do cuidado dos ovos por parte de opiliões.

Da ordem dos aracnídeos (mas não sendo aranhas), os opiliões não produzem nem seda nem veneno. Na superfamília Gonyleptoidea, a que tem mais casos documentados de como estes animais cuidam dos seus ovos, tanto machos como fêmeas já foram encontrados a zelar pela sua prole por nascer. Contudo, ainda pouco se sabe sobre esse comportamento.

Para colmatar essa falha, os investigadores analisaram cerca de 24.000 fotografias partilhadas na iNaturalist, registando a presença ou ausência de cuidado parental em 53 espécies de opiliões.

Fêmea de Goniosoma roridum a cuidar dos seus ovos, no Brasil. Foto: Glauco Machado.

Combinando esses dados da ciência cidadã com novas observações, no terreno e em laboratório, de 19 cientistas de cinco países da América Latina, a equipa conseguiu reunir informação sobre o cuidado parental para um total de 85 espécies de opiliões, duplicando o número de espécies para as quais anteriormente havia dados disponíveis sobre esse comportamento.

“Este estudo mostra como a fotografia da vida selvagem pode produzir avanços científicos significativos”, diz Glauco Machado, investigador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e primeiro autor do estudo publicado na revista ‘Zoological Journal of the Linnean Society’.

“Ao combinar imagens da iNaturalist com observações científicas, mais do que duplicámos o número de espécies de opiliões com dados sobre cuidado parental”, acrescenta o também docente universitário.

Todos esses dados permitiram aos cientistas revelar a evolução do cuidado parental na superfamília Gonyleptoidea, que tem é especialmente diversa na região neotropical.

Assim, descobriram que, nas espécies cujas fêmeas cuidam dos seus ovos, o cuidado maternal terá evoluído de antepassados em que esse comportamento não existia.

Por outro lado, as espécies em que os machos são quem cuida dos ovos descendem de antepassados que em também esse comportamento não existia ou então que era somente exibido pelas progenitoras.

“Este artigo conjuga dois temas de grande interesse: a evolução da parentalidade e o poder da ciência cidadã. Além disso, mostra que a mesma abordagem (o uso de fotos da iNaturalist, pode ser usada para muitos outros animais e comportamentos, muito para lá dos opiliões”, sentencia Machado.

“As pessoas podem contribuir simplesmente ao observarem a natureza, ao tirarem boa fotografias de vários ângulos e ao carregarem-nas em plataformas como a iNaturalist. Uma fotografia que parece vulgar por documentar um comportamento desconhecida da ciência e ajudar os investigadores a responderem a questão evolutivas de muito maior amplitude.”

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