“Ciência de paraquedas” deixa para trás os insetos tropicais

O estudo reúne especialistas em ecologia tropical de vários países e identifica quatro grandes obstáculos à conservação dos insetos tropicais: a reduzida visibilidade internacional da investigação existente, a falta de dados, infraestruturas de investigação insuficientes e uma ação de conservação ainda limitada.

Redação

Os insetos são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas e para a produção de alimentos, mas continuam largamente ausentes das estratégias de conservação da biodiversidade nos trópicos. Um novo estudo liderado pela Monash University propõe um modelo global para ultrapassar as principais lacunas de conhecimento e melhorar a proteção destes animais.

Publicado na revista BioScience, o estudo reúne especialistas em ecologia tropical de vários países e identifica quatro grandes obstáculos à conservação dos insetos tropicais: a reduzida visibilidade internacional da investigação existente, a falta de dados, infraestruturas de investigação insuficientes e uma ação de conservação ainda limitada.

Os insetos constituem o grupo de animais mais diversificado do planeta, com uma estimativa de 14 a 30 milhões de espécies, a maioria das quais ainda não foi documentada. Polinizam mais de 80% das espécies de plantas selvagens, servem de alimento a 60% das espécies de aves e desempenham funções essenciais nas cadeias alimentares, na reciclagem de nutrientes e na produção alimentar.

Apesar disso, o conhecimento utilizado na conservação está fortemente concentrado nas regiões temperadas, que representam apenas cerca de 20% da diversidade mundial de insetos.

“Mais de 80% das espécies de insetos ocorrem nos trópicos, mas são precisamente estes os locais onde existem algumas das maiores lacunas no nosso conhecimento”, afirma Shawan Chowdhury, responsável pelo Global Change Ecology Lab da Monash University e principal autor do estudo.

“Não podemos conservar eficazmente as espécies se não soubermos o que existe, onde as populações estão a mudar ou sequer onde pode ser encontrado conhecimento importante que já existe.”

Um problema de dados e de acesso ao conhecimento

Os investigadores propõem combinar a investigação científica convencional com informação proveniente de publicações regionais e não escritas em inglês, coleções de museus, conhecimento local, ciência-cidadã, observações partilhadas nas redes sociais e novas tecnologias.

A proposta passa também pelo reforço das capacidades científicas locais e pela criação de melhores ligações entre a investigação e os responsáveis pelas políticas de conservação.

A dimensão da lacuna de informação é significativa. Cerca de 26% dos dados sobre a distribuição de insetos disponíveis na Global Biodiversity Information Facility têm origem no Reino Unido, apesar de a maior parte da diversidade mundial de insetos se encontrar nas regiões tropicais.

“Alguma da informação de que precisamos urgentemente já existe, mas pode estar num jornal local, nas mãos de um especialista regional, numa coleção ou até em fotografias partilhadas online”, explica Chowdhury.

“A resposta não passa simplesmente por recolher mais dados. Precisamos de ser muito melhores a encontrar, ligar e utilizar o conhecimento que já existe, ao mesmo tempo que desenvolvemos a capacidade e as infraestruturas locais necessárias para uma monitorização de longo prazo.”

O exemplo do Bangladesh

Os investigadores aplicaram o modelo ao Bangladesh, um dos países tropicais mais densamente povoados do mundo, que ilustra tanto os desafios como as oportunidades existentes.

A análise identificou 111 estudos relevantes sobre as borboletas do país, mas apenas 34 tinham sido publicados em revistas internacionais. Quase dois terços centravam-se na distribuição das espécies e apenas três abordavam especificamente a conservação.

As redes sociais revelaram também uma fonte potencialmente importante de informação sobre a biodiversidade. Uma investigação anterior encontrou registos no Facebook para 167 das 169 espécies de borboletas ameaçadas do Bangladesh, mostrando como fontes de dados não convencionais podem ajudar a colmatar lacunas em países onde as bases de dados formais sobre biodiversidade são ainda limitadas.

O país demonstra igualmente a urgência de transformar conhecimento em medidas concretas. Das 226 espécies de borboletas avaliadas numa investigação anterior, apenas uma estava adequadamente representada pelo atual sistema de áreas protegidas do Bangladesh.

“O Bangladesh mostra que a falta de dados convencionais não significa que tenhamos de aceitar a falta de ação de conservação”, defende Chowdhury.

Contra a “ciência de paraquedas”

Os investigadores defendem ainda uma mudança na forma como é feita a investigação internacional nos trópicos, afastando-se da chamada “ciência de paraquedas”, em que investigadores de outros países tratam os cientistas e as comunidades locais sobretudo como fontes de dados, em vez de parceiros em condições de igualdade.

O modelo proposto aposta, pelo contrário, numa investigação liderada localmente, no investimento em coleções e infraestruturas científicas regionais, no reforço da especialização taxonómica, na monitorização de longo prazo e em parcerias internacionais mais equilibradas.

“Se queremos que as metas globais de biodiversidade tenham algum significado, os insetos tropicais não podem continuar a ser uma preocupação secundária”, afirma o investigador.

“Os trópicos albergam a maior parte da diversidade mundial de insetos. Proteger esta extraordinária diversidade não é apenas uma questão de conservação dos insetos – é fundamental para os ecossistemas, a segurança alimentar e o bem-estar humano.”

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