A borboleta-atlas da espécie Polyommatus atlantica tem 229 pares de cromossomas, fazendo dela o animal com o maior número dessas estruturas genéticas. Só para comparar, os humanos têm, por norma, 23 pares.
Já se suspeitava que esse inseto arrecadasse o recorde, mas um artigo publicado esta semana na revista ‘Current Biology’, pelo menos de acordo com os seus autores, é o primeiro a confirmá-lo através da sequenciação do genoma dessa espécie.
Mas a equipa de cientistas queria ir mais longe e perceber por que razão a Polyommatus atlantica, nativa das regiões montanhosas de Marrocos e do nordeste da Argélia, tem um tão grande número de pares de cromossomas.
Foi descoberto que os cromossomas dessa borboleta estavam “partidos” em ponto onde o material genético, o ADN, está menos compactamente enovelado. Dessa forma, e apesar do grande número de cromossomas, a P. atlantica parece ter a mesma quantidade de informação genética, mas essa está condensada em secções mais pequenas.
Os investigadores perceberam que quase todos os cromossomas desse animal estavam “partidos”, à exceção dos sexuais, e acreditam que é por isso que a borboleta tem uma tão grande quantidade de cromossomas, e estimam que terá começado com 24 pares, há cerca de três milhões de anos, período durante o qual acabou por chegar aos inusitados 229 pares.
Dizem os especialistas que normalmente esse tipo de “mudanças cromossómicas extremas” pode ser prejudicial para os organismos, dando origem, por exemplo, a cancros. No entanto, salientam em comunicado, que as borboletas P. atlantica “evoluíram e sobreviveram durante milhões de anos” e que “só agora, devido às alterações climáticas e aos impactos humanos no ambiente (…) é que as suas populações estão sob ameaça”.
No artigo, é-nos sugerido que o maior número de cromossomas pode dar a esses insetos a capacidade para aumentarem a diversidade genética da sua espécie, uma vez que mais porções genéticas permitem mais combinações. Contudo, não afastam a possibilidade dessa complexidade poder torná-las mais vulneráveis à extinção.
Muitas questões estão ainda em aberto, pelo que os cientistas dizem ser necessários mais estudos e comparações com outras espécies de borboletas para perceber os genes que a P. atlantica perdeu ou preservou ao longo da sua história evolutiva, bem como para aprofundar o conhecimento sobre como surgem novas espécies.
Roger Vila, do Instituto de Biologia Evolutiva da Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona (Espanha), e um dos autores do estudo, refere que quebras nos cromossomas foram já detetadas noutras borboletas, mas nada que se compare ao que acontece na P. atlantica, pelo que acredita que “há razões importantes para este processo que agora podemos começar a explorar”.
E acrescenta que, uma vez que os cromossomas “possuem todos os segredos de uma espécie”, investigar se a quebra cromossómica afeta o comportamento das borboletas “pode ajudar a criar uma imagem mais completa sobre como e porquê uma nova espécie surge”.









