Uma equipa internacional de vulcanólogos reuniu 18 dos principais equívocos sobre vulcões e erupções num novo guia científico que pretende ajudar jornalistas, decisores e o público a distinguir informação rigorosa de desinformação, sobretudo durante situações de crise.
O trabalho, liderado pela vulcanóloga neozelandesa Janine Krippner e que conta, entre os autores, com Heather Handley, vulcanóloga e curadora sénior de Geociências do Museums Victoria Research Institute, foi publicado no Journal of Applied Volcanology. Os investigadores analisaram temas que surgem frequentemente na comunicação social e nas redes sociais quando um vulcão entra em atividade, desde a relação entre vulcões e sismos à possibilidade de uma “supererupção”.
“Os vulcões são um poderoso lembrete de que a Terra é um planeta dinâmico. As suas erupções podem ser espetaculares e despertar a curiosidade, mas também podem representar riscos sérios para as comunidades, as infraestruturas e a aviação. Nestes momentos, disponibilizar informação rigorosa e baseada na ciência não é apenas importante, pode ser fundamental para ajudar as pessoas a compreender o que está a acontecer e a responder de forma adequada”, afirma Heather Handley.
O artigo organiza os equívocos identificados em seis grandes temas: sismologia; vulcões e clima; sistemas e estruturas vulcânicas; perigos vulcânicos; escalas temporais; e fotografias e imagens de vídeo.
Entre os conceitos que mais frequentemente geram interpretações erradas estão expressões como “Anel de Fogo do Pacífico”, “supervulcões” e “megatsunamis”, além de questões relacionadas com o clima e a saúde humana e com a possibilidade de prever erupções. O trabalho aborda também conceitos básicos, como a diferença entre cinzas vulcânicas e fumo ou o significado de “câmaras” de magma.
“Quando um vulcão entra em erupção, é compreensível que as pessoas queiram respostas rapidamente. Mas, na pressa de obter informação, os equívocos podem espalhar-se rapidamente. Uma comunicação clara e rigorosa ajuda as comunidades a compreender o que está a acontecer em períodos de incerteza”, sublinha Heather Handley.
Desinformação pode agravar crises
Os autores têm experiência em comunicação de riscos vulcânicos e participaram na resposta a crises em países como Indonésia, Filipinas, Nova Zelândia, Austrália, Chile, Estados Unidos e vários países europeus. Segundo a equipa, o contacto direto com estes episódios permitiu identificar os momentos e os temas em que a desinformação tende a ganhar maior expressão.
Cada um dos 18 equívocos é acompanhado por conclusões baseadas em investigação científica recente, com o objetivo de fornecer informação que possa ser utilizada na comunicação com o público.
O estudo inclui ainda sete estudos de caso relativos a erupções recentes e de grande visibilidade: o Monte Agung, em Bali, na Indonésia; o Etna, na Sicília, Itália; o Kīlauea, no Havai, Estados Unidos; Tajogaite, em La Palma, Espanha; La Soufrière, em São Vicente; o vulcão Taal, nas Filipinas; e a caldeira de Yellowstone, nos Estados Unidos.
Para Janine Krippner, primeira autora do estudo, a disseminação de informação incorreta tornou-se particularmente difícil de acompanhar devido à velocidade das redes sociais.
“Está a tornar-se cada vez mais difícil separar a desinformação e os equívocos sobre os vulcões à medida que a informação incorreta se espalha rapidamente na internet. Até algumas das formas como os vulcões são habitualmente descritos nas escolas e nos meios de comunicação social podem ser enganadoras. Enquanto vulcanólogos, queremos ajudar”, explica.
A investigadora acrescenta que a equipa internacional identificou 18 ideias erradas que surgem repetidamente em títulos e notícias quando um vulcão entra em atividade, desde a descrição das cinzas vulcânicas como fumo até às alegações de que os “supervulcões” poderiam provocar o fim da civilização.
“Escrevemos um guia revisto por pares para os meios de comunicação social e para o público, que explica o que a ciência realmente diz e fornece um recurso ao qual as pessoas podem recorrer quando estas alegações surgem”, afirma Janine Krippner.
A especialista considera que o trabalho é particularmente relevante para a Nova Zelândia, onde a atividade vulcânica representa um risco conhecido. “Quando ocorrem episódios de atividade vulcânica ou erupções aqui, muitos dos mesmos equívocos podem rapidamente surgir na cobertura dos meios de comunicação social e nas discussões online. Também viajamos frequentemente para regiões vulcanicamente ativas, onde ser capaz de distinguir informação fiável de desinformação pode tornar-se importante durante uma crise.”
O estudo pretende, assim, incentivar uma resposta mais rápida à desinformação, defendendo que os equívocos devem ser corrigidos logo nos primeiros momentos de uma crise vulcânica e que o público deve ser encaminhado para fontes científicas credíveis.









