Uma equipa internacional de investigadores identificou uma nova espécie de cogumelo em África que é considerada o parente selvagem mais próximo de um dos mais conhecidos “cogumelos mágicos”. A descoberta poderá alterar o que se pensava saber sobre a origem e a disseminação global destes fungos psicadélicos.
A espécie, denominada Psilocybe ochraceocentrata, foi encontrada em zonas de pastagem na África do Sul e no Zimbabué. De acordo com os cientistas, terá partilhado um ancestral comum com o Psilocybe cubensis — um dos cogumelos mágicos mais cultivados no mundo — há cerca de 1,5 milhões de anos.
Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Proceedings B da Royal Society e envolvem investigadores da Universidade de Stellenbosch (África do Sul), bem como de instituições nos Estados Unidos e no Zimbabué.
Até agora, a teoria dominante sugeria que o Psilocybe cubensis teria chegado às Américas apenas no século XVI, transportado involuntariamente com o gado introduzido pelos colonizadores europeus. Estes cogumelos desenvolvem-se frequentemente em estrume, o que explicaria a sua disseminação juntamente com a expansão da pecuária.
No entanto, a divergência evolutiva entre as duas espécies, ocorrida há cerca de 1,5 milhões de anos, sugere que a expansão do Psilocybe cubensis poderá ter começado muito antes do período colonial.
Segundo Breyten van der Merwe, micólogo e estudante de doutoramento na Universidade de Stellenbosch, embora as duas espécies apresentem semelhanças visuais, possuem diferenças genéticas, ecológicas e químicas relevantes. O investigador é um dos coautores do estudo.
A nova espécie já era cultivada em várias partes do mundo há anos, mas sob outras designações usadas por cultivadores para descrever uma variedade considerada particularmente potente e fácil de produzir. Só agora, através de análises genéticas detalhadas, foi possível confirmar que se trata de uma espécie distinta.
Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram ADN recolhido em amostras provenientes do sul de África e em espécimes históricos preservados em coleções científicas. A equipa utilizou métodos de análise filogenética, datação molecular e modelação ecológica para reconstruir a história evolutiva destes fungos.
Os cientistas admitem várias hipóteses para explicar a separação entre as duas espécies há milhões de anos. Uma delas relaciona-se com alterações ecológicas profundas ocorridas nesse período, quando as pradarias se expandiram na América do Sul e os grandes herbívoros começaram a dispersar-se de África para outras regiões. Esse processo poderá ter criado novos habitats favoráveis ao desenvolvimento e diferenciação destas espécies de cogumelos.
Além de esclarecer a origem evolutiva do Psilocybe cubensis, a descoberta poderá também fornecer novos recursos genéticos para a investigação científica sobre cogumelos mágicos. A equipa pretende agora aprofundar o estudo dos compostos químicos produzidos por estas espécies e avaliar o seu potencial em modelos de investigação sobre perturbação de stress pós-traumático, ansiedade e depressão.









