Na vizinha Espanha foram detetados, pela primeira vez, híbridos resultantes do cruzamento entre toirões (Mustela putorius) e furões-domésticos (Mustela putorius furo) a viverem na Natureza.
Publicado no final de março na revista ‘Mammalian Biology’, o estudo que dá conta da descoberta foi liderado pela Universidade de Cádiz e contou com a participação de Victor Bandeira, investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro.
Através da análise de amostras genéticas de toirões que foram atropelados em estradas de diferentes regiões de Espanha (a morte por atropelamento é uma das principais ameaças à espécie) e de furões utilizados para a caça de coelhos, os cientistas detetaram vários casos de introgressão genética, ou seja, em que há troca de material genético entre espécimes selvagens e domésticos. Dessa forma, confirmaram que há indivíduos híbridos a viverem na Natureza.
Os resultados mostram elevadas taxas de hibridação, com 15% dos furões e 35% dos toirões analisados a apresentarem algum grau de hibridação.
Além disso, os autores encontraram um espécime híbrido de primeira geração, descendente de uma mãe toirão e de um pai furão, confirmando a remoção ilegal de espécimes selvagens do meio natural para a utilização na criação em cativeiro. Estes resultados confirmam que a hibridação não é apenas um fenómeno histórico, mas também ocorre recorrentemente na atualidade, alertam os investigadores.

O toirão, um parente silvestre do furão-doméstico, é um pequeno carnívoro amplamente distribuído na Europa, embora as suas populações tenham diminuído em várias regiões devido à perda de habitat, à perseguição humana e a outros fatores antrópicos como as colisões rodoviárias. Em Portugal, está classificado como espécie “Em Perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental.
A libertação ou fuga de furões-domésticos facilita o contacto com toirões, promovendo cruzamentos que podem passar despercebidos. E isso pode representar um risco para a conservação dos toirões, espécie ameaçada de extinção.

Explica a equipa que a hibridação pode diluir as adaptações locais do toirão e dificultar a identificação de indivíduos geneticamente “puros”. Isso levante complicações à gestão populacional e ao desenvolvimento de estratégias de conservação. Além disso, a presença de híbridos pode interferir com os programas de monitorização e avaliação do estado da espécie.
“O principal risco não é apenas a existência ocasional de híbridos, mas sim que a hibridação se mantenha ao longo do tempo e possa erodir progressivamente a identidade genética das populações selvagens e a sua capacidade de adaptação”, afirma Tamara Burgos, autora principal do estudo, citada em comunicado da Universidade de Aveiro.
Os investigadores apelam, por isso, ao reforço dos controlos relativos à detenção e libertação de furões, especialmente os que são utilizados para a caça de coelhos, que frequentemente se perdem ou são abandonados na natureza, bem como de incorporar ferramentas genéticas nos programas de monitorização do toirão.
Os autores destacam que compreender a verdadeira magnitude da hibridação é essencial para garantir a conservação a longo prazo deste carnívoro pouco conhecido nos ecossistemas ibéricos.










