Cientistas lançam alerta: Detetada hibridação entre toirão e furão na Natureza em Espanha

Através da análise de amostras genéticas, os cientistas detetaram vários casos de introgressão genética, ou seja, em que há troca de material genético entre espécimes selvagens e domésticos. Dessa forma, confirmaram que há indivíduos híbridos a viverem na Natureza.

Redação

Na vizinha Espanha foram detetados, pela primeira vez, híbridos resultantes do cruzamento entre toirões (Mustela putorius) e furões-domésticos (Mustela putorius furo) a viverem na Natureza.

Publicado no final de março na revista ‘Mammalian Biology’, o estudo que dá conta da descoberta foi liderado pela Universidade de Cádiz e contou com a participação de Victor Bandeira, investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro.

Através da análise de amostras genéticas de toirões que foram atropelados em estradas de diferentes regiões de Espanha (a morte por atropelamento é uma das principais ameaças à espécie) e de furões utilizados para a caça de coelhos, os cientistas detetaram vários casos de introgressão genética, ou seja, em que há troca de material genético entre espécimes selvagens e domésticos. Dessa forma, confirmaram que há indivíduos híbridos a viverem na Natureza.

Os resultados mostram elevadas taxas de hibridação, com 15% dos furões e 35% dos toirões analisados a apresentarem algum grau de hibridação.

Além disso, os autores encontraram um espécime híbrido de primeira geração, descendente de uma mãe toirão e de um pai furão, confirmando a remoção ilegal de espécimes selvagens do meio natural para a utilização na criação em cativeiro. Estes resultados confirmam que a hibridação não é apenas um fenómeno histórico, mas também ocorre recorrentemente na atualidade, alertam os investigadores.

Fêmea de toirão, pura, retirada da Natureza para fins de reprodução em cativeiro, tendo gerado um híbrido. Foto: Tamara Burgos et al., 2026, Mammalian Biology.

O toirão, um parente silvestre do furão-doméstico, é um pequeno carnívoro amplamente distribuído na Europa, embora as suas populações tenham diminuído em várias regiões devido à perda de habitat, à perseguição humana e a outros fatores antrópicos como as colisões rodoviárias. Em Portugal, está classificado como espécie “Em Perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental.

A libertação ou fuga de furões-domésticos facilita o contacto com toirões, promovendo cruzamentos que podem passar despercebidos. E isso pode representar um risco para a conservação dos toirões, espécie ameaçada de extinção.

Híbrido de primeira geração, descendente de pai furão e mãe toirão. Foto: Tamara Burgos et al., 2026, Mammalian Biology.

Explica a equipa que a hibridação pode diluir as adaptações locais do toirão e dificultar a identificação de indivíduos geneticamente “puros”. Isso levante complicações à gestão populacional e ao desenvolvimento de estratégias de conservação. Além disso, a presença de híbridos pode interferir com os programas de monitorização e avaliação do estado da espécie.

“O principal risco não é apenas a existência ocasional de híbridos, mas sim que a hibridação se mantenha ao longo do tempo e possa erodir progressivamente a identidade genética das populações selvagens e a sua capacidade de adaptação”, afirma Tamara Burgos, autora principal do estudo, citada em comunicado da Universidade de Aveiro.

Os investigadores apelam, por isso, ao reforço dos controlos relativos à detenção e libertação de furões, especialmente os que são utilizados para a caça de coelhos, que frequentemente se perdem ou são abandonados na natureza, bem como de incorporar ferramentas genéticas nos programas de monitorização do toirão.

Os autores destacam que compreender a verdadeira magnitude da hibridação é essencial para garantir a conservação a longo prazo deste carnívoro pouco conhecido nos ecossistemas ibéricos.

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