Cientistas observam pela primeira vez a formação de novo fundo oceânico em tempo real

O estudo, publicado na revista científica Nature, acompanhou a atividade numa dorsal oceânica localizada entre as placas tectónicas Australiana e Antártica, a sudoeste da Austrália.

Redação

Uma equipa internacional de investigadores conseguiu observar diretamente, pela primeira vez, um episódio de formação de nova crosta oceânica nas profundezas do oceano Índico, oferecendo pistas inéditas sobre um dos processos geológicos mais importantes do planeta.

O estudo, publicado na revista científica Nature, acompanhou a atividade numa dorsal oceânica localizada entre as placas tectónicas Australiana e Antártica, a sudoeste da Austrália. Estas cadeias montanhosas submarinas são os locais onde surge continuamente novo fundo oceânico à medida que o magma ascende do interior da Terra e arrefece.

Para monitorizar a região, os investigadores franceses instalaram um observatório autónomo a cerca de dois quilómetros de profundidade, equipado com instrumentos capazes de registar atividade sísmica e alterações na superfície do fundo marinho.

Apenas dois meses após a instalação dos equipamentos, os cientistas registaram uma intensa sequência de sismos iniciada a 26 de abril de 2024. Nos seis dias seguintes, o fundo oceânico deslocou-se um total de 4,2 metros, num dos raros episódios de expansão do leito marinho observados diretamente.

Segundo a equipa liderada por Jean-Yves Royer, o fenómeno foi provocado pelo esvaziamento de uma enorme câmara magmática com cerca de 2,5 quilómetros de largura, situada a 3,6 quilómetros abaixo da crosta terrestre. O magma acumulado nesse reservatório ascendeu à superfície, onde solidificou e deu origem a nova crosta oceânica.

Os investigadores estimam que o evento libertou mais de 160 milhões de metros cúbicos de lava. Durante as primeiras horas após os sismos, o movimento do fundo marinho atingiu velocidades de cerca de cinco centímetros por minuto, desacelerando gradualmente para pouco mais de um centímetro por dia uma semana depois.

As dorsais médio-oceânicas são responsáveis pela formação de aproximadamente dois terços da superfície terrestre existente, mas os mecanismos exatos que regulam estes episódios de expansão continuam pouco compreendidos devido à dificuldade de realizar observações em grandes profundidades.

Os autores do estudo defendem que estes acontecimentos resultam da acumulação gradual de tensões ao longo das fronteiras entre placas tectónicas durante várias décadas. Quando essa tensão atinge um determinado limite, ocorre uma libertação súbita de energia através de sismos e da ascensão de magma, permitindo a criação de novo fundo oceânico.

Para os cientistas, as observações agora obtidas representam um avanço significativo na compreensão da dinâmica das placas tectónicas sob os oceanos. Os investigadores consideram que futuras campanhas em outras dorsais oceânicas poderão ajudar a esclarecer melhor as diferenças entre sistemas dominados pela atividade magmática e aqueles onde predominam os sismos.

Num comentário publicado juntamente com o estudo, especialistas em geologia marinha sublinham que os movimentos das placas tectónicas nos oceanos continuam a ser menos conhecidos do que os processos observados em terra firme. No entanto, salientam que esta investigação demonstra que já é possível monitorizar com elevada precisão fenómenos geológicos que ocorrem a milhares de metros de profundidade.

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