Cientistas portugueses encontram no mar alternativa a biocidas tóxicos

Grupo de investigadores do CIIMAR e das universidades de Lisboa e do Porto criaram um produto para combater a bioincrustação com base em péptidos produzidos por cianobactérias marinhas. Dizem os criadores que esse biocida é melhor alternativa para a indústria marítima e para a conservação da biodiversidade.

Redação

Um grupo de investigadores liderado pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) criou um produto eficaz e não tóxico para remover bactérias, algas e invertebrados que colonizaram superfícies emersas, como cascos de navios, infraestruturas portuárias e equipamentos de aquacultura.

Esse fenómeno de colonização é conhecido como bioincrustação marinha, ou biofouling em inglês, representa um dos maiores desafios operacionais e económicos para as indústrias marinhas, nomeadamente a indústria naval, aumentando os custos de manutenção dos navios, o consumo de combustível e de emissões.

Atualmente, a principal resposta a este problema é o uso de tintas que continuamente libertam substâncias tóxicas, como cobre e outros compostos metálicos, para impedir a incrustação. Embora possam ser eficazes, essas abordagens ameaçam outros organismos não envolvidos na incrustação e também a biodiversidade marinha.

Foi precisamente para tentar encontrar uma solução que ao mesmo tempo ajude a resolver o problema da bioincrustação e a proteger os ecossistemas e espécies marinhas que o CIIMAR, em colaboração com as universidades de Lisboa e do Porto, desenvolveu uma nova abordagem anti-incrustante baseada em péptidos naturais produzidos por cianobactérias marinhas.

A prova de conceito foi descrita num artigo publicado este mês na revista ‘Trends in Biotechnology’, no qual os investigadores demonstram que esses péptidos são capazes de substituir biocidas tóxicos que dominam o mercado de tintas anti-incrustantes usadas na indústria marítima.

Joana Almeida, investigadora do CIIMAR e principal coautora do estudo, explica, em comunicado que “a principal inovação deste trabalho está no uso de péptidos naturais produzidos por cianobactérias, que interferem seletivamente nos processos iniciais de colonização biológica, sem prejuízo para organismos não-alvo nem para a biodiversidade marinha”. Ou seja, esses péptidos atingem alvos específicos sem afetar outros organismos.

O resultado, detalha a cientista, é um produto capaz de “controlar eficazmente a bioincrustação marinha sem recorrer à libertação contínua de biocidas tóxicos, abrindo caminho a uma nova geração de revestimentos anti-incrustantes ambientalmente responsáveis”.

Alguns biocidas usados no combate à bioincrustação, como o tributilestanho, são tão tóxicos que a sua utilização foi já proibida na União Europeia, que, através do Regulamento dos Produtos Biocidas, tem exigido o desenvolvimento de alternativas ambientalmente seguras.

Por isso, como diz Joana Almeida, “a transição para soluções anti-incrustantes não tóxicas é inevitável face ao enquadramento regulatório europeu”, e garante que “essa transição é não só possível, como tecnologicamente viável”.

Dizem os investigadores que o biocida com base em péptidos de cianobactérias marinhas, já testado em ambiente real, tem uma eficácia comparável, e em alguns casos mesmo superior, ao dos biocidas comerciais usados amplamente nos dias de hoje pela indústria marítima.

“Ao reduzir a libertação de poluentes no oceano, esta tecnologia tem o potencial de gerar benefícios ambientais claros, mas também ganhos económicos diretos para setores como o transporte marítimo, a aquacultura e as infraestruturas costeiras”, declara Joana Almeida.

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