Os humanos estão praticamente em todos os cantos do planeta, mas há ainda áreas que apenas outros animais conseguem alcançar.
Foi esta constatação que levou um grupo de cientistas da Dinamarca a recorrer à ajuda de narvais (Monodon monoceros) para estudar o degelo na região oriental da Gronelândia, mais especificamente no sistema de fiordes de Scoresby Sound, sobre o qual poucos dados tinham, até então, sido recolhidos devido à dificuldade do acesso por barco.
Assim, os investigadores equiparam seis narvais locais com sensores, que, ao longo das deslocações naturais dos animais, foram obtendo dados, entre 2017 e 2019, sobre a profundidade a que mergulhavam, bem como sobre a temperatura e salinidade da água. Com os dados recolhidos pelos narvais, os cientistas dizem que conseguirão perceber melhor as alterações ambientais que estão a ocorrer nessa região, caracterizada por uma mistura de águas mais frias do Ártico e de águas mais quentes e salgadas do Oceano Atlântico.

A equipa combinou as medições dos narvais com dados oceanográficos históricos, o que permitiu criar um modelo que mostra as relações entre temperatura, salinidade e profundidade ao longo do tempo.
Num artigo publicado na revista ‘Science Advances’, os dados apontam para uma “atlantificação” da Gronelândia oriental, em que “a camada constituída por água do Atlântico tornou-se mais espessa, enquanto a camada superior de água polar se tornou mais fina”, como explica Susanne Ditlevsen, da Universidade de Copenhaga e coautora do estudo.
Os narvais permitiram à equipa perceber que a água mais quente do Atlântico alcança várias centenas de quilómetros a partir da costa pela terra adentro, através dos fiordes, chegando às bacias dos glaciares.
“Esta é a água que a ajuda a derreter os glaciares”, afirma Mads Peter Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Gronelândia e primeiro autor do artigo. “Mostramos como a água quente pode contribuir para acelerar o ritmo a que os glaciares perdem gelo”, acrescenta.
Embora este trabalho se foque no leste da Gronelândia, a equipa acredita que os resultados têm implicações que vão muito além da área de estudo, podendo ajudar a melhorar a forma como antevemos o que poderá estar por vir num planeta cada vez mais quente.
“Nos grandes modelos climáticos usados para prever alterações climáticas futuras, o degelo dos glaciares desempenha um papel muto importante”, salienta Ditlevsen. “É, por isso, fundamental que aprofundemos o nosso conhecimento sobre isso, sobretudo porque a Gronelândia contém uma quantidade tão grande de gelo”, acrescenta.









