Cinco jovens abutres-pretos (Aegypius monachus) deram entrada na estação de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return, no Parque Natural do Douro Internacional. O objetivo é que venham a reforçar aquela que é uma das colónias mais vulneráveis do país.
O grupo é constituído por quatro juvenis nascidos em 2025 e por um jovem, de nome Pousio, mais velho, nascido na colónia da Vidigueira em 2024. Os quatro abutres mais jovens foram recolhidos em vários pontos da região centro, entre setembro e outubro do ano passado, pelas equipas do projeto, coordenado pela Vulture Conservation Foundation e que tem como missão conservar essa ave ameaçada de extinção.
Os animais do quarteto apresentavam, de acordo com as informações avançadas pela Liga para a Protecção das Natureza, um dos parceiros do projeto, sinais de debilidade e de desnutrição.
Explica a organização portuguesa que as crias de abutres-pretos fazem os seus primeiros voos geralmente no mês de agosto, cerca de quatro meses após a eclosão. Depois de alguns voos junto à área onde nasceram, tornam-se, aos poucos, mais autónomos dos progenitores, e, por vezes, arriscam voos mais longos, para explorarem o território. No entanto, por não terem ainda experiência suficiente para reconhecer o território ou detetar alimento, podem desorientar-se e passar vários dias sem se alimentar, sendo frequente encontrar esses animais extraviados em áreas inusitadas, afastadas dos locais de reprodução.
Foi precisamente isso que aconteceu com os quatro abutres mais jovens. Quanto ao Pousio, a história é um pouco diferente. O macho é a primeira cria conhecida da recente colónia da Vidigueira e foi descoberto pelas equipas do projeto em 2024, na Herdade do Monte da Ribeira.

Ainda no ninho, o Pousio foi anilhado e marcado com um emissor GPS/GSM, o que, no mês de janeiro seguinte, permitiu decifrar um terrível incidente. O Pousio foi vítima de tiro de caçadeira, de madrugada e enquanto se encontrava pousado, tendo ficado com mais de 22 chumbos e fragmentos de projéteis nas patas e no corpo.
Foi recolhido pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e levado para o LxCRAS – o Centro de Recuperação de Animais Silvestres gerido pela Câmara Municipal de Lisboa. A complexidade dos ferimentos exigiu a sua transferência para o Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Após novas intervenções e recuperação, foi enviado para o Centro de Interpretação Ambiental e de Recuperação Animal (CIARA), em Torre de Moncorvo, onde completou os treinos de voo e uma precoce muda de penas. Finalmente, depois de oito longos meses, o Pousio estava plenamente reabilitado e foi libertado na sua colónia natal, em setembro de 2025.
No entanto, nos dias que se seguiram, o Pousio não se alimentou e acabou por pousar em Serpa, aparentemente procurando alimento junto das comunidades humanas. Foi novamente resgatado e entregue no LxCRAS, onde permaneceu até ao ingresso na aclimatação.

Na estação de aclimatação do LIFE Aegypius Return, os abutres-pretos aprendem ou reaprendem os comportamentos normais da espécie, ao socializarem com vários companheiros. Durante seis a oito meses, o que os especialistas chamam de libertação branda (ou “soft release”, em inglês), os animais, do interior da estação, observam também os seus congéneres, e outras espécies em liberdade, no exterior e no campo de alimentação para aves necrófagas que se localiza em frente.
Chegado o momento da devolução à Natureza, a estação será aberta e cada abutre sairá livremente quando assim entender.
O grande objetivo é que estes cinco jovens abutres-pretos venham a reforçar a colónia do Douro Internacional, considerada a mais frágil e isolada do país, e, assim, contribuir para os esforços de conservação deste espécie ameaçada.









