Coexistência entre eólicas offshore e biodiversidade marinha é possível com monitorização contínua e ação atempada

O avanço da produção de energia renovável para o mar levanta preocupações no que toca aos impactos sobre a vida marinha. Travar a crise climática não pode significar agravar a crise da perda de biodiversidade. O estudo de um parque eólico em Portugal ajuda a aprofundar o conhecimento sobre a relação entre a produção energética offshore e os animais que vivem abaixo e acima das ondas.

Filipe Pimentel Rações

A cerca de 18 quilómetros ao largo da costa de Viana do Castelo, na imensidão do azul marinho erguem-se três turbinas eólicas, boiando na superfície da água em plataformas flutuantes ancoradas ao leito marinho, a profundidades de até 100 metros.

Trata-se do parque eólico offshore WindFloat Atlantic (WFA), gerido e operado pela empresa Ocean Winds, um consórcio formado pela portuguesa EDP Renováveis e pela energética francesa Engie. Com uma capacidade instalada de 25 megawatts (MW), o projeto, ainda em fase pré-comercial, ficou totalmente operacional em julho de 2020 e já produziu mais de 430 gigawatts-hora (GWh) de eletricidade renovável para a rede pública.

Precisamente por se encontrar ainda numa fase pré-comercial, o projeto representa uma oportunidade singular para avaliar os efeitos do parque eólico offshore na vida marinha com a qual partilha o mar. Para isso, foi feito um estudo sobre a biodiversidade que ocorre no local do parque, antes, durante e após a sua instalação, com o grande objetivo de perceber como é que os animais marinhos reagiam à presença dessas estruturas humana, tão estranhas aos olhos dessas criaturas dos mundos de água salgada.

Coordenado pela consultora independente Blue Grid, em parceria com o centro de investigação MARE, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e o Politécnico de Leiria, o estudo, publicado em abril deste ano, decorreu entre junho de 2018 e abril de 2025, e registou a presença de várias espécies na área do parque eólico WFA: cinco de mamíferos marinhos, 33 de aves, três de morcegos e 52 de peixes.

À medida que a transição energética avança a todo o vapor, impulsionada, entre outras coisas, pela vontade de fechar a porta aos combustíveis fósseis e mitigar a crise climática e todas as suas repercussões ambientais, sociais, económicas e securitárias, são várias as vozes, de diversos quadrantes, que avisam que é indispensável aliar essa transformação à conservação e ao restauro da Natureza. Caso essa harmonia não seja tida em conta, porventura na pressa para mostrar ao mundo quedas “sem precedentes” nas emissões nacionais de gases com efeito de estufa, poderá estar a conseguir-se o alívio de uma crise com o agravamento de outra.

Teresa Simas, diretora-executiva e cofundadora da Blue Grid, consultora independente que coordenou o estudo científico de biodiversidade no parque WFA, em parceria com o centro de investigação MARE, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e o Politécnico de Leiria.

Com o espaço em terra a escassear para a instalação de centrais de grande escala para a produção de energia de fontes renováveis, e com o recrudescimento da contestação social e ambiental em alguns projetos, muitos olhos viram-se para o mar, onde se estende um mundo de oportunidades. Também aí há preocupações, nomeadamente sobre os impactos de parques de renováveis offshore na vida marinha.

No entanto, como nos diz Teresa Simas, diretora-executiva e cofundadora da Blue Grid, com monitorização contínua, mecanismos de gestão ambiental adaptativa, antecipação e minimização de impactos negativos e com capacidade de atuação atempada, é possível compatibilizar a expansão das renováveis offshore com a conservação e o restauro da biodiversidade marinha.

Cetáceos e turbinas eólicas

Hidrofones, radares, sensores ultrassónicos e investigadores em barcos foram alguns dos métodos usados pelas equipas de especialistas para compreender como é que a vida marinha reage à presença das turbinas eólicas do parque offshore WFA.

Uma das principais conclusões do estudo de monitorização biológica e ecológica é que as variações encontradas na composição das comunidades marinhas, em diversos níveis da cadeia alimentar, se devem sobretudo a fatores naturais associados às estações do ano. O relatório revela que não foram encontrados efeitos negativos sobre o plâncton, organismos microscópicos que são a base da cadeia trófica, que havia mais polvos e peixes dentro da área do projeto do que nas áreas adjacentes e que não parece haver diferenças entre essas zonas no número de avistamentos de mamíferos marinhos.

No entanto, há diferenças no que toca à distribuição das espécies. Os botos (Phocoena phocoena), cetáceos também conhecidos como toninhas e classificados como “Criticamente em perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental de 2023, eram mais frequentemente observadas nas áreas adjacentes ao projeto, ao contrário, por exemplo, do golfinho-comum (Delphinus delphis), espécie com estatuto de “Quase ameaçada”, cujas vocalizações foram registadas mais significativamente na área do parque do que fora dela.

O golfinho-comum foi uma das espécies de mamíferos marinhos mais avistada na área do parque eólico offshore WFA. Foto.: incidencematrix / Wikimedia Commons (licença CC BY 2.0).

Teresa Simas explica-nos que a atividade dos botos diminuiu na área após a instalação do projeto, algo que também foi observado noutros parques eólicos offshore. O que poderá ter causado esse aparente afastamento dos botos para as áreas imediatamente envolventes? Embora não se saiba com absoluta certeza a razão, uma possível explicação, com base no conhecimento científico existente, é que os botos são especialmente sensíveis ao ruído produzido pelo funcionamento das turbinas eólicas, “o que pode causar perturbação comportamental e evitamento da área”, explica a especialista.

Há, contudo, uma outra possível explicação, que não exclui necessariamente a anterior. Alguns roazes-corvineiros (Tursiops truncatus) foram observadores na área do parque eólico, uma espécie de cetáceos que pode competir diretamente com os botos por alimento. Por isso, e por serem maiores e considerados mais impositivos do que os botos, esses últimos podem evitar a área do parque para evitarem também entrarem em confronto direto com os roazes.

O caso dos golfinhos-comuns é diferente. De acordo com o estudo, esses animais eram os cetáceos mais comuns na área do parque, representando 78% dos avistamentos de mamíferos marinhos. Esses golfinhos parecem ter uma maior tolerância face ao ruído e presença das turbinas eólicas, e a sua abundância no local pode também dever-se a uma grande concentração de presas, como peixes e polvos, maior do que na área envolvente devido à proibição da pesca na zona do parque.

Ainda que não haja casos documentados de competição direta entre botos e golfinhos-comuns em parques eólicos offshore, os autores deste estudo não rejeitam a hipótese de a maior presença de golfinhos-comuns no interior do parque WFA contribuir para o afastamento dos botos.

O estudo detetou também a presença de orcas na área do parque eólico WFA. Foto: Rudi De Meyer / Unsplash.

Sobre se o afastamento dos botos poder ser interpretado como uma real perda de habitat causada pelas turbinas offshore, Teresa Simas diz-nos que, com base nos dados recolhidos, não é possível confirmar nem negar que isso esteja a acontecer, “nem distinguir um efeito real de deslocamento de flutuações naturais na presença da espécie”. O que se pode dizer com certeza é que esse padrão é consistente com o que se observou noutros parques eólicos marinhos.

Além do boto, do roaz e do golfinho-comum, foram também observadas na área do parque WFA orcas (Orcinus orca) e baleias-anãs (Balaenoptera acutorostrata).

Nos céus

Uma das grandes preocupações relativamente aos impactos das eólicas, em terra e no mar, sobre a vida selvagem tem a ver com as colisões de animais voadores, como morcegos e aves, com as turbinas. O estudo feito aponta que os impactos do parque WFA são muito baixos no que toca a choques entre pás e animais alados.

No que toca aos morcegos, os dados mostram que a presença desses mamíferos na área do parque é muito reduzida, uma “atividade esporádica” que está associada ao período migratório, segundo nos explica Teresa Simas. Aliás, o relatório não aponta qualquer registo de colisão de morcegos com turbinas durante a monitorização desse grupo de animais, entre setembro de 2021 e dezembro do ano seguinte.

O morcego-arborícola-pequeno (Nyctalus leisleri), o morcego-rabudo (Tadarida teniotis) e o morcego-arborícola-gigante (Nyctalus lasiopterus) foram as únicas três espécies detetadas durante a monitorização desse grupo de animais, entre setembro de 2021 e dezembro do ano seguinte, na área do parque WFA, que os especialistas consideram não ser usada com regularidade pelos morcegos como local de nidificação ou de alimentação.

Morcegos em voo. Foto: Clément Falize / Unsplash.

Por a sua presença estar associada somente a movimentos migratórios, os autores do relatório concluem que o risco de colisão dos morcegos com as turbinas eólicas deste pequeno parque offshore no norte do país é “negligenciável”. Contudo, reconhecem que o método usado para avaliar a presença de morcegos na área – a gravação dos ultrassons produzidos por esses mamíferos – não permite detetar colisões, pelo que, de facto, não se sabe de as houve ou não.

Ainda sobre os animais voadores, o estudo registou a presença de 33 espécies diferentes de aves na área de estudo: 17 antes da instalação do parque e 31 durante a fase operacional. As aves mais comuns eram o alcatraz (Morus bassanus), representando quase metade da densidade de aves marinhas na área do parque, a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), a pardela-balear (Puffinus mauretanicus), a gaivota-d’asa-escura (Larus fuscus), o airo (Uria aalge) e a torda-mergulheira (Alca torda).

Pardela-balear. Foto: Marcabrera / Wikimedia Commons (licença CC BY-SA 2.0)

O relatório diz que, de todas as espécies de aves registadas na área do parque, duas são de especial preocupação em termos de conservação por estarem classificadas como “Criticamente em perigo”: o airo e a pardela-balear. Mas essas não parecem ser as que enfrentam os maiores riscos de colisão com as turbinas eólicas.

Os especialistas apontam seis espécies que voam em “altitudes de risco”, à altura das pás rotativas, com as gaivotas de maiores dimensões, como a gaivota-de-patas-amarelas e a gaivota-d’asa-escura, como as mais afetadas pelo risco de colisão. O alcatraz segue em segundo lugar.

Airo. Foto: Melissa McMasters / Wikimedia Common (licença CC BY 2.0).

Ainda assim, Teresa Simas clarifica que, apesar de o risco de choque ser elevado, a literatura científica diz que essas aves tendem a evitar as turbinas, com taxas de evitamento que podem superar os 98%. “Na prática, isto significa que, mesmo quando uma proporção significativa de indivíduos voa a alturas de risco, o número de colisões efetivamente esperado tende a ser uma pequena fração desse total”, explica a especialista.

Durante o período de monitorização, não houve qualquer registo de colisão de aves com as turbinas, assegura, o que está em linha com o atual conhecimento científico e que se pode dever também ao facto de se tratar de um parque eólico offshore com apenas três turbinas.

No entanto, muitas destas aves marinhas atravessam todos os anos grandes porções dos oceanos, percorrendo quilómetros e quilómetros sobre as águas marinhas para alcançarem locais de alimentação e reprodução, para passarem os meses mais quentes ou mais frios do ano. Com a multiplicação dos parques eólicos offshore pelo mundo, uma expansão que se prevê que continue na senda da transição energética, é possível que os impactos as populações e espécies venham a acumular-se ao longo dos movimentos das aves, podendo pôr em risco o seu futuro.

O alcatraz, também conhecido como ganso-patola, era uma das aves mais abundantes no parque eólico offshore. Foto: Hobbyfotowiki / Wikimedia Commons (licença CC0 1.0).

Teresa Simas diz que não era objetivo deste estudo avaliar os impactos cumulativos, à escala regional ou global, dos parques eólicos offshore nas aves, mas diz que é “uma realidade que tem sido enfrentada noutras regiões”, como no Mar do Norte, “onde coexistem múltiplos parques eólicos”.

“A crescente pressão humana sobre os ecossistemas costeiros e marinhos, decorrente de atividades como a pesca, o transporte marítimo, a exploração de recursos, o turismo e, mais recentemente, a expansão das energias renováveis offshore, tem intensificado a preocupação com os impactos cumulativos sobre a biodiversidade marinha”, afirma a especialista da Blue Grid.

A coexistência é possível?

Essa preocupação levou à criação de instrumentos legais e de planeamento à escala europeia e nacional, como a Diretiva 2014/89/UE, que estabelece o quadro para o ordenamento do espaço marítimo europeu, para promover o desenvolvimento sustentável das atividades marinhas, conciliando usos como a produção de energia, a pesca, o transporte marítimo e a conservação da natureza.

A diretiva foi transposta para o enquadramento jurídico nacional, servindo de base para a definição de áreas para o desenvolvimento de parques de energia renovável offshore, integrados no Plano de Situação do Ordenamento do Espaço Marítimo Nacional (PSOEM).

“As zonas marítimas foram selecionadas com base em critérios técnicos de modo a maximizar o aproveitamento do recurso eólico, minimizando, ao mesmo tempo, impactos noutros setores e no meio ambiente, tendo sido excluídas, por exemplo, áreas marinhas protegidas e outras zonas de elevada sensibilidade ecológica”, sintetiza Teresa Simas.

Está previsto que o parque eólico WindFloat Atlantic esteja em operação até 2045. Foto: Teresa Simas.

Para a também investigadora em modelação ambiental e ecológica, com várias décadas de trabalho sobre os impactos da indústria energética na biodiversidade marinha, esse é um quadro legal que “em teoria, permite antecipar, minimizar e gerir os impactos cumulativos antes da instalação dos projetos, incluindo sobre as aves, desde que os critérios ambientais que o informam sejam suficientemente robustos e a sua aplicação seja acompanhada de medidas de mitigação adequadas, monitorização continuada e de mecanismos de gestão ambiental adaptativa”.

O estudo mostrou também que o parque eólico criou um refúgio para diversas espécies, o chamado “efeito de recife”, resultando no aumento da abundância de peixes e de polvos, por exemplo, e algumas de elevado interesse comercial.

“O fator determinante parece ser, sobretudo, a exclusão da pesca dentro da área do parque”, explica Teresa Simas, o que cria, por sua vez, um “efeito de spillover”, no qual as espécies abundantes dentro da área do parque, onde não se pode pescar, “transbordam” para as áreas envolventes, onde é permitida a pesca, beneficiam não só as pescarias, mas também a populações em terra.

A especialista deixa, contudo, um alerta: “o relatório alerta explicitamente que este aumento de diversidade e abundância não deve ser automaticamente interpretado como um benefício ambiental isolado, uma vez que estas estruturas artificiais podem também criar desequilíbrios ecológicos”.

Por exemplo, o relatório refere o risco de proliferação de espécies não-nativas que podem usar as estruturas artificiais para se dispersarem a larga escala. E Teresa Simas recorda que se prevê que as áreas dos parques offshore possam vir a ter usos múltiplos, incluindo navegação e pesca, pelo que esses benefícios em termos de refúgio e de “spillover” podem vir a ser alterados.

Para a especialista, “a harmonização entre renováveis offshore e biodiversidade marinha é tecnicamente possível”, ainda que, por as tecnologias serem ainda recentes, “seja necessário que uma abordagem científica multidisciplinar possa ser colocada no centro do processo de decisão antes, durante e após a instalação dos parques, de modo que os projetos individuais sejam pensados não como entidades isoladas, mas como peças de um sistema mais vasto de gestão da atividade humana no meio marinho”.

“Os resultados obtidos constituem uma base de conhecimento valiosa para o futuro, uma vez que a partir deles será possível refinar futuros planos de monitorização, propor novos procedimentos de aquisição e análise de dados ambientais e repensar medidas de mitigação coordenadas com a instalação de múltiplos parques numa mesma região”, sublinha.

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