O colapso da corrente de circulação termoalina meridional do Atlântico (também conhecida pela sigla AMOC) pode vir a libertar grandes quantidades de carbono armazenado nas águas oceânicas para a atmosfera e aumentar a temperatura média do planeta.
A AMOC é um sistema de correntes marinhas de profundidade que transporta águas aquecidas dos trópicos até à Europa e ao Ártico, onde é arrefecida e afunda (porque a água fria é mais pesada do que a água quente). E funciona em sentido inverso também, levando água mais fria para os trópicos, onde é novamente aquecida, dessa forma criando uma corrente.
É também considera um dos mecanismos mais importantes da regulação do clima do planeta, pelo que, se viesse a colapsar, pelo aquecimento das águas marinhas e por alterações na salinidade por causa do degelo, poderia mergulhar a região do Atlântico Norte em mais tempestades, lançar a Europa em invernos gelados e verões ainda mais secos e quentes e fazer subir ainda mais o nível do mar.
Não há ainda consenso na comunidade científica sobre quando a AMOC colapsará, embora alguns investigadores reconheçam que a corrente está a abrandar. Agora, um grupo de cientistas do Instituto Potsdam para a Investigação sobre o Impacto Climático (PIK) decidiu mostrar a importância da corrente enquanto regulador climático global e o que aconteceria se realmente acabasse por desaparecer.
Para avaliarem como é que o colapso da AMOC afetaria o ciclo de carbono e as temperaturas globais, os investigadores criaram simulações do clima da Terra a estabilizar em diferentes concentrações de dióxido de carbono (CO2). Depois, introduziram os efeitos da água doce na superfície do Atlântico para induzir o colapso da corrente.
Num artigo publicado na revista ‘Communications Earth & Environment’, os investigadores explicam que, a concentrações de CO2 em níveis pré-industriais, na ordem das 280 partes por milhão (ppm), mesmo que a AMOC colapse sob o efeito da água doce, acabará por recuperar quando a entrada de água doce acabar.
Contudo, em concentrações de 350 ppm ou superiores, acima das atuais 430 ppm, quando a AMOC colapsar não recuperará.
“Maiores concentrações de CO2 altamente fundamentalmente a estabilidade da AMOC”, explica Da Nian, primeira autora do estudo, acrescentando que a corrente poderá enfraquecer ao longo de séculos até que, por fim, acaba por colapsar e permanecer nesse estado.
“Uma vez colapsada, verificamos que não recupera a longo-prazo”, salienta a investigadora.
Em todos os cenários analisados neste artigo, o “desligar” da AMOC causaria um aquecimento global adicional entre os 0,17 e os 0,27 graus Celsius. E isso deve-se a libertação de grandes quantidades de carbono do Oceano Antártico, onde águas ricas em carbono de zonas mais profundas ascendem à superfície.
“O oceano tem sido o nosso maior aliado, absorvendo um quarto das emissões humanas de CO2. O nosso estudo mostra como um colapso da AMOC pode converter o Oceano Antártico de sumidouro de carbono em fonte de carbono, libertando grandes quantidades de CO2 e agravando ainda mais o aquecimento global”, diz Johan Rockström, diretor do centro de investigação PIK e coautor deste trabalho.









