Como criar uma Europa energeticamente independente?

Mais do que um episódio pontual e que poderá ser passageiro ou, por outro lado, conjuntural, este contexto reforça a necessidade e enorme importância da Europa reavaliar profundamente as fontes de energia e o próprio modelo energético, com um potencial impacto transformacional em todo o sistema.

Redação

Por João Januário diretor de Energia na Minsait em Portugal, Indra Group

A atual escalada de tensão no Médio Oriente, em particular o conflito no Irão e os constrangimentos à livre circulação de petroleiros no estreito de Ormuz, volta a expor uma fragilidade estrutural do sistema energético global. Cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás passa por esta região, pelo que qualquer instabilidade geopolítica, seja sob a forma de sanções, conflitos armados ou bloqueios logísticos, traduz-se, quase de imediato, em volatilidade de preços e em incerteza económica. Mais do que um episódio pontual e que poderá ser passageiro ou, por outro lado, conjuntural, este contexto reforça a necessidade e enorme importância da Europa reavaliar profundamente as fontes de energia e o próprio modelo energético, com um potencial impacto transformacional em todo o sistema.

O primeiro efeito é claro nos mercados: choques geopolíticos continuam a ser um fator de risco sistémico. A discussão em torno do nuclear, embora relevante, tem horizontes temporais longos e não responde à urgência do presente. Pelo contrário, tudo indica que assistiremos a uma aceleração do investimento em energias renováveis, não apenas por razões climáticas, mas sobretudo por motivos de segurança e soberania energética, reduzindo a dependência de fornecedores externos e de geografias instáveis.

Em paralelo, ganha força uma tendência estrutural de descentralização. A dependência de grandes infraestruturas centralizadas e de combustíveis fósseis importados, começa a dar lugar a modelos baseados na produção local. O autoconsumo solar, eólico de pequena escala, armazenamento distribuído e comunidades de energia são bons exemplos. Este movimento torna o sistema menos vulnerável a choques externos e aproxima a energia dos cidadãos e das empresas.

Mas esta transformação exige, no entanto, um terceiro pilar essencial, que é do reforço da interligação e da digitalização da rede. A entrada massiva de renováveis, por natureza mais intermitentes, impõe capacidades de gestão em tempo real, redes inteligentes e maior integração entre regiões. Episódios recentes como o apagão de 28 de abril de 2025, ou a tempestade Kristin, em janeiro de 2026, tornaram evidente para toda a sociedade, e não apenas para os agentes do setor, a urgência de sistemas mais resilientes.

Perante este cenário, e à luz das mudanças na política externa muito influenciadas também pela volatilidade da Administração Trump, a pergunta que se impõe é clara: como pode a Europa promover esta transformação e garantir a sua soberania energética?

Tal como em 2022 conseguiu reduzir rapidamente a dependência do petróleo russo (caiu de mais de 40% em 2021 para cerca de 6% em 2025), a Europa tem hoje de mitigar dependências externas, enquanto constrói um sistema mais flexível, distribuído e resiliente. Há alavancas concretas ao seu alcance, como acelerar a produção descentralizada, facilitando o autoconsumo e as comunidades de energia; investir de forma decidida em redes inteligentes e digitalização; reforçar soluções de armazenamento como baterias e hidrogénio verde; e aprofundar as interligações entre países europeus, reforçando uma soberania coletiva baseada num sistema integrado. O renovado interesse de França na interligação com a Península Ibérica é um bom sinal desse caminho.

A este plano junta‑se a necessidade de uma política industrial e tecnológica ambiciosa, capaz de desenvolver cadeias de valor europeias em áreas críticas como de baterias, equipamentos renováveis, dados e inteligência artificial, assim como de uma estabilidade regulatória que combine incentivos claros com simplificação. Sobre as baterias por exemplo, a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a capacidade global de armazenamento de energia terá de aumentar cerca de seis vezes até 2030 para permitir a integração massiva de energias renováveis, sendo as baterias responsáveis por aproximadamente 90% desse crescimento. A Europa precisa de libertar‑se da lógica de que “Europa regula, a América executa”, criando espaço para mais inovação e empreendedorismo, em particular no domínio digital.

No fundo, não se trata de uma Europa que tudo controla, mas de uma Europa que, promovendo a diversificação, a distribuição e a digitalização do seu sistema energético, constrói um modelo mais autónomo, mais interligado e mais resiliente, dando passos firmes rumo à sua soberania energética.

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