Conchas de caracóis podem guardar registos de fenómenos meteorológicos extremos

Pequenas amostras da concha, recolhidas a intervalos de apenas alguns milímetros, permitiram determinar a idade do animal, o período em que viveu e as condições meteorológicas a que esteve exposto.

Redação

As conchas dos caracóis podem funcionar como pequenas “cápsulas do tempo” meteorológicas, permitindo reconstruir fenómenos extremos ocorridos antes da existência dos registos meteorológicos modernos. A conclusão resulta de um estudo da University of Queensland, publicado numa revista científica com revisão por pares.

A equipa, liderada por investigadores da School of the Environment, analisou os anéis de crescimento da concha de um caracol da espécie Figuladra bayensis, conhecido como Biggenden Banded Snail, recolhido no Coalstoun Lakes National Park, no sudeste de Queensland, na Austrália.

Pequenas amostras da concha, recolhidas a intervalos de apenas alguns milímetros, permitiram determinar a idade do animal, o período em que viveu e as condições meteorológicas a que esteve exposto. Para isso, os investigadores recorreram a datação por radiocarbono de alta resolução e à análise de isótopos estáveis de oxigénio e carbono presentes nas diferentes camadas da concha.

“Utilizámos datação por radiocarbono de alta resolução para determinar a idade dos anéis de crescimento na concha”, explica Nicholas Patton, investigador da University of Queensland.

“A concha continha níveis elevados de radiocarbono provenientes dos testes nucleares realizados na Austrália na década de 1960, o que nos permitiu datar os anéis de crescimento e revelar que o caracol tinha vivido cerca de 4,5 anos”, acrescenta.

A análise dos isótopos permitiu ainda obter informação sobre a precipitação registada durante a vida do animal. Os investigadores verificaram, contudo, que a concha não crescia de forma contínua: períodos de crescimento rápido eram intercalados com fases de pouco ou nenhum crescimento.

Inicialmente, a equipa esperava que os períodos de crescimento mais rápido coincidissem com anos de maior precipitação, que proporcionariam mais alimento ao caracol. Os resultados apontaram, porém, para outro fenómeno.

“Os resultados mostraram que o caracol estava a responder a episódios de precipitação extrema, e não à humidade anual”, afirma Jamie Shulmeister, professor honorário da University of Queensland.

Como os investigadores conseguiram determinar quando o caracol viveu, foi possível relacionar os períodos de crescimento acelerado com acontecimentos meteorológicos específicos. Neste caso, estes coincidiram com períodos imediatamente posteriores à passagem de ciclones em 2015 e 2017.

“Como sabíamos quando o caracol viveu, os surtos de crescimento puderam ser associados a períodos imediatamente posteriores aos ciclones de 2015 e 2017”, explica Jamie Shulmeister.

Os ciclones tropicais severos Marcia e Debbie provocaram ambos episódios de precipitação extrema no Coalstoun Lakes National Park. Para os investigadores, o resultado demonstra que as conchas de caracóis podem constituir uma ferramenta para identificar fenómenos meteorológicos extremos ocorridos antes da existência dos atuais registos meteorológicos.

“É surpreendente e bastante entusiasmante que o humilde caracol possa ser uma ferramenta para reconstruir as trajetórias de ciclones passados, mesmo em épocas pré-históricas”, afirma Jamie Shulmeister.

A equipa pretende agora testar o método em diferentes conchas e depósitos sedimentares. Se forem encontradas conchas em diferentes camadas de sedimentos, os investigadores poderão combinar os registos individuais e recuar ainda mais no tempo.

“Se conseguirmos encontrar conchas dentro de diferentes camadas de depósitos sedimentares, podemos combinar os registos individuais de cada concha para prolongar esta informação ainda mais para trás no tempo”, conclui Nicholas Patton.

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