O mundo natural está a tornar-se cada vez mais pequeno. A expansão dos humanos para espaços historicamente ocupados mais por animais selvagens do que pela nossa espécie de Homo, a par da destruição dos habitats naturais, está a aproximar cada vez mais seres que não têm história de convivência, ou a que têm é curta.
Quando humanos e animais selvagens vivem nos mesmos espaços e dependem dos mesmos recursos, é provável que surjam conflitos, com riscos para ambas as partes. Foi precisamente sobre este tema que se debruçou João Paulino.
No âmbito do seu doutoramento no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o investigador analisou a perceção dos produtores de arroz relativamente às aves aquáticas com as quais convivem, na Lezíria Grande, na zona de Vila Franca de Xira.
O estudo, publicado recentemente na revista ‘European Journal of Wildlife Research’, centrou-se num tema que os autores descrevem como sendo “cada vez mais relevante nos ecossistemas agrícolas mediterrânicos”: a coexistência entre a atividade agrícola e a conservação da Natureza.
A investigação contou também com Pedro Granadeiro e Teresa Catry, ambos do CE3C, e Ana Nuno, do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA), da Universidade Nova de Lisboa, e especializada nas dimensões sociais da conservação.
À medida que as zonas húmidas naturais vão desaparecendo, os arrozais assumem um papel cada vez mais importante como habitat para aves aquáticas, diz a equipa. Contudo, e apesar do valor amplamente reconhecido destes ecossistemas agrícolas para a conservação destas espécies, as estratégias de conservação raramente consideram as perceções dos produtores de arroz, salientam os investigadores, um vazio no conhecimento que, com este trabalho, quiserem preencher.
“O sucesso ou fracasso de muitas medidas de conservação em arrozais depende, em grande parte, das ações, decisões e colaboração destes agricultores”, diz João Paulino.
As aves aquáticas são frequentemente vistas pelos agricultores como potenciais pragas, devido aos danos que podem causar nas culturas. Os flamingos, as cegonhas e os íbis foram identificados pelos produtores de arroz como as espécies que estes consideram responsáveis pelos maiores prejuízos, sobretudo durante os períodos de sementeira e colheita.
Em resposta, os agricultores adotam várias técnicas para espantar as aves, como canhões de gás propano, para as manterem afastadas dos campos.
Esta situação origina um conflito entre os seres humanos e a vida selvagem, dizem os investigadores, algo que pode comprometer a conservação de algumas espécies e dificultar a relação entre os produtores e as entidades ligadas à preservação da Natureza.
Agricultores mais jovens com perceções “particularmente negativas”
De acordo com os resultados do trabalho, percebeu-se que os agricultores mais velhos têm uma perceção menos negativa das aves aquáticas, mas, ao mesmo tempo, são os que se mostram menos dispostos a considerar estratégias de mitigação de conflitos. Por outro lado, os agricultores mais jovens mostraram ter perceções “particularmente negativas”.
Além disso, os cientistas perceberam que os agricultores com níveis mais elevados de escolaridade demonstraram perceções mais positivas e maior recetividade a soluções, considerando as medidas de dissuasão economicamente eficazes.
Com base na informação recolhida, a equipa apresenta várias recomendações para promover “uma coexistência mais sustentável entre a agricultura e a conservação da natureza”, diz em nota.
Entre essas, destaca-se o envolvimento dos produtores na recolha de dados científicos que permitam quantificar o impacto real das aves na produção de arroz e identificar, de forma rigorosa, as espécies responsáveis pelos maiores prejuízos.
Dessa forma, seria possível não só fazer dos agricultores parte de esforços de conservação, como também conceber medidas de afastamento direcionadas para as espécies que estão, de facto, a ter impactos negativos nas culturas, em vez das técnicas não seletivas que afastam todas as aves, bem como outros animais que podem ser benéficos para a produção agrícola.
“Apenas através do conhecimento da real dimensão económica do problema será possível desenvolver soluções eficazes”, declara João Paulino.
Dizem os investigadores que estas soluções poderão passar não só pela recolha sistemática de dados, mas também pela implementação de ações de educação ambiental e pela criação de esquemas agroambientais que reconheçam e compensem o valor de conservação proporcionado pelos arrozais, bem como os eventuais prejuízos causados pelas aves.









