- A descarbonização do setor da construção está a perder ritmo, agravando a crise climática e os custos da habitação.
- Em 2024, as emissões operacionais dos edifícios aumentaram 1%, representando 37% das emissões globais.
- Para atingir emissões líquidas zero até 2050, serão necessários investimentos de 5,9 biliões de dólares em eficiência energética até 2030.
- Cerca de 12,7 milhões de metros quadrados de área construída são adicionados diariamente, com economias emergentes liderando o crescimento.
- Políticas públicas mais ambiciosas e apoio financeiro são essenciais para garantir habitação acessível e sustentável.
A descarbonização do setor da construção está a perder ritmo e poderá agravar tanto a crise climática como os custos da habitação, alerta um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) e da Global Alliance for Buildings and Construction (GlobalABC).
O documento, que avalia o progresso global rumo a edifícios com emissões líquidas zero até 2050, conclui que tornar as casas mais sustentáveis é também essencial para as tornar mais acessíveis. Segundo os autores, edifícios energeticamente eficientes ajudam a reduzir contas de energia, reforçam a resiliência a fenómenos climáticos extremos e diminuem a exposição a choques nos preços da energia.
Em 2024, as emissões operacionais dos edifícios aumentaram 1%, atingindo 9,9 gigatoneladas de CO₂. Atualmente, o setor da construção representa cerca de 37% das emissões globais, 28% do consumo mundial de energia e quase metade da extração global de materiais.
Apesar disso, o relatório destaca alguns avanços desde 2015. A intensidade energética dos edifícios — que mede o consumo anual de energia em relação ao tamanho — diminuiu 8,5%, enquanto as certificações de construção sustentável quase triplicaram. Ainda assim, as energias renováveis forneceram apenas 17,3% da energia consumida pelos edifícios em 2024, um valor considerado insuficiente para atingir as metas de neutralidade carbónica.
“Os edifícios podem perpetuar riscos climáticos ou proporcionar condições de vida mais seguras, saudáveis e acessíveis”, afirma Inger Andersen, diretora executiva do UNEP. A responsável sublinha que metade dos edifícios que existirão em 2050 ainda não foram construídos ou renovados, o que representa uma oportunidade crítica para governos implementarem políticas de construção resiliente e de emissões zero.
O relatório surge num contexto de crise global de habitação e aumento dos custos da energia. Segundo os dados apresentados, o mundo acrescenta diariamente cerca de 12,7 milhões de metros quadrados de área construída — o equivalente a construir uma cidade do tamanho de Paris praticamente todas as semanas.
Em 2024, a área global de edifícios cresceu 1,7%, atingindo 273 mil milhões de metros quadrados, impulsionada sobretudo por economias emergentes como Índia e países do Sudeste Asiático.
Os autores alertam que, desde 2020, a transição ecológica do setor não tem acompanhado o ritmo da expansão da construção. Para alinhar o setor com uma trajetória de emissões líquidas zero até 2050, será necessário acelerar melhorias na eficiência energética, eliminar progressivamente os combustíveis fósseis e aumentar significativamente o investimento.
O relatório estima que serão necessários 5,9 biliões de dólares em investimentos em eficiência energética até 2030, o equivalente a cerca de 592 mil milhões de dólares por ano.
Entre os exemplos positivos destacados estão o crescimento das energias renováveis em edifícios na Austrália, Alemanha, Índia e Paquistão, a atualização de códigos energéticos em regiões como Califórnia, Japão, Quénia e Singapura, e o aumento do financiamento para construção sustentável no Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido.
O UNEP e a GlobalABC defendem que políticas públicas mais ambiciosas, melhores códigos de construção e maior apoio financeiro serão decisivos para acelerar a transformação do setor e garantir habitação mais acessível e resiliente às alterações climáticas.









